a idade das semi coisas


Publicado em
Texto por
Severo Garcia
Imagem por
Denise Nova Cruz

 

 

No fim, ela fecha o livro como quem fecha uma janela durante uma tempestade que terminou. Embora a chuva ainda permaneça no cheiro das coisas.

 

Demora alguns segundos olhando para a capa. Como se ainda estivesse assimilando o final da história. Os livros envelhecem, mas histórias disfarçam melhor o seu tempo.

 

Num instante, reabre o livro e se depara com a epígrafe:

 

A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever”. Jean de La Bruyère

 

Frase avulsa, solta dentro de uma folha aberta.

 

Será que uma história escrita consegue fabricar uma lembrança do que nunca aconteceu?

 

A filha morreu antes de aprender a envelhecer. O suicídio interrompeu todas as idades que ainda estavam por vir. Nunca soube como ela pisaria aos quarenta anos. Nunca soube se falaria alto ao telefone, se fugiria do banho nas manhãs frias, se regaria plantas por mania ou contemplação, se aprenderia a rir da própria tristeza.

 

Sabe que escrever a memória é insuficiente, pois ela devolve apenas estilhaços, nunca a casa inteira. Há lembranças que pedem para continuar vivendo, mesmo quando doem. Outras insistem em voltar justamente porque doem. Escrever é uma forma de oferecer um corpo provisório.

 

Por isso inventou outra mulher para contar o que jamais seria lido?

 

Ela convivia com um vírus, alguns amores, pequenas vergonhas, uma sucessão de dias comuns e a estranha habilidade de continuar respirando sem exageros. Deu-lhe o tempo que nunca teve.

 

Talvez nenhuma daquelas páginas fosse verdadeira. Talvez fossem a única verdade possível.

 

Às vezes, imaginava que ela própria já não era exatamente uma pessoa. Era um armário onde guardava vozes emprestadas. Uma cadeira ocupada. Tinha tentado ser apenas um móvel, silencioso, imóvel, indiferente ao peso das lembranças. Mas os móveis não escrevem. E justamente por isso nunca conseguiu ser um.

 

Escrever foi o som da sua quietude. A literatura, descobriu tarde demais, não ressuscita ninguém. Apenas concede aos mortos uma oportunidade.

 

Ela fecha o livro.

 

Lá fora, um cachorro latia para uma árvore.

 

A árvore, talvez por delicadeza, também carregava uma memória impossível e permaneceu em silêncio. Feito um baobá.

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