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Ensaios


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o luto de uma mãe

A voz escrita não tem idade. Memória e imaginação alicerçam passos em conjunto e reproduzem a si mesmas. Talvez por isso, à exemplo do que J.M. Coetzze formula sobre sua própria memória ficcional em “Verão”, a escrita inspira recursos (...) Leia mais

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corpo e papel

(…)   A condição de doente, no aparato da racionalidade médica, se traduz numa língua estrangeira com exames de imagem, testes laboratoriais, medições de marcadores tumorais, entre escassas apalpações e toques. A palavra-doença tem vocabulário e classificação própria. (...) Leia mais

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sobre números, nomes e abandono

Os números de presos passam a nos impactar cada vez menos. São mais de 500. Fala-se de uma capacidade acima do imaginável. Mas o sistema penitenciário se faz viável numa realidade questionável. O que nos dizem os números da (...) Leia mais

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ressonância

(…)   Téc-téc-téc. Croc-croc-croc. Tum. Clac-clac. A máquina martela os ouvidos. Como cheguei até aqui? Foi ela. Ela e minha fantasia. Foram elas, as avós das minhas avós, e toda minha história familiar que me (...) Leia mais

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galeria do comércio

  Eles se conheceram no “comércio”. Era assim que se dizia em nossa casa. O comércio funcionava como uma espécie de entidade. Santa Maria carregava título da cidade dos universitários - a Universidade Federal de Santa Maria, (...) Leia mais

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casa-escola

  (…)   Sonhadoras mal remuneradas. O salário da fome. Sindicalistas, alguns mansos, outros pelegos. Mulheres, na grande maioria, na labuta diária em escolas públicas, básicas, fundamentais. Mulheres de dois, três, quatro turnos. Casa-escola. Provas, aulas, (...) Leia mais

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porta retrato

Perguntei o que tinha achado de estar no aniversário da neta. Viajou dez horas de ônibus na companhia do meu pai. Foi sua última viagem de ônibus. Não fazia ideia de onde estava. Espontaneamente perguntou: quem era (...) Leia mais

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material escolar

Hoje, na estrada, voltando para casa, pensei sobre a vida e a memória. Histórias esquecidas, engolidas e encolhidas dentro de algum lugar. Tentei lembrar de épocas diferentes. Chegou a dar um breve desespero por não conseguir acessar ou ter (...) Leia mais

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Livro de dedicatórias

No começo de 2023, após longas férias em Buenos Aires e visitas a livrarias e sebos, instalei em mim o desejo longínquo de organizar (não ousaria dizer escrever) um livro dedicado às dedicatórias.   Guardo dessa época (...) Leia mais

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cadarços

Ela tenta amarrar os cadarços. Dois laços. Um nó. Imagem que resiste no tempo. Não lembro quando ela me ensinou a amarrar os tênis. Até hoje, de um modo infantil, coloco o dedo para seguir o laço. (...) Leia mais

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até o que não se sabe

Será que vou ser um desses que, antes de morrer, tem que conviver com colostomia, fralda, saquinho de xixi, rotina de consultório médico, internação na UTI, reincidência de câncer, reinternações, até morrer numa cama de hospital? Não sei. E (...) Leia mais

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livro de pinturas

No começo - quando foi o começo? - comprei alguns livros de palavra cruzadas. Permaneceram intocados. Ela nunca fez palavras cruzadas. Depois, comecei a comprar livros de colorir. Havia algo de estranho nisso: eram os mesmos livros que (...) Leia mais

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contar enquanto o chão desaparece

“A realidade forma-se apenas na memória.” — Marcel Proust Parte I (…) Eu não tenho vivência, memória nem desejo próprio. Eu não produzo experiência, apenas trabalho sobre linguagem. Era ela. A minha mãe IA. Imediatamente ocorreu-me (...) Leia mais

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Tudo tem seu dono

— O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui, William Shakespeare, na peça "A Tempestade" (Ato I, Cena II) (…)   Certamente, por estar possuído "de mim", tenho as "proteções" contra os tropeços em (...) Leia mais

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As reuniões semanais

(…) Ao sair de Santa Maria, aos vinte e cinco anos, assumi, ainda que de modo não declarado, o luto inevitável daquilo que deixava para trás. Era cedo demais para compreender o que já se inscrevia em meu (...) Leia mais

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sinal da cruz

(…)   Não há salvação. Não há consolo. É apenas uma constatação. Alguns dirão que é verdade. O que é, afinal, original? O que nunca foi escrito? Fiz prometer que não sairia sem mim. Ela (...) Leia mais

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lapsos

(…) No início, havia lapsos de ausência. Perto do final, lapsos de presença. Como se fossem duas, que não se encontravam. A que dominava o corpo era persistente; a outra, doce e frágil. E não havia alguém (...) Leia mais

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na nuvem

(…) Ela está nervosa para partir. Queria ir embora. Mas, para onde? O que lhe afligia era a distância de sua casa? Talvez fosse tempo demais longe do que ainda reconhecia como seu. Isso era perceptível até para (...) Leia mais

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Takotsubo

Se o homem persistisse em sua loucura, tornar-se-ia sábio. William Blake   […]   Desmontei os desejos. Era como se estivesse por um tempo adormecida ou quase-morta. O desejo de escrever também se foi. Assim (...) Leia mais

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Um parto

[…] Não há como parir e permanecer a mesma. O nascimento de um filho instaura um antes e um depois. Literalmente, o corpo já não pode ser idêntico ao que foi. Após o parto, encontra-se outro corpo. Primeiro, (...) Leia mais

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Soy loco por ti América

[…]   O medo prende, mas o começo é uma saída para enfrentar tormentas do passado. Em maio de 2017, resolvi fazer um plano novo para minha vida. O princípio era relativamente simples: não me comprometer com (...) Leia mais

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