Os filhos do medo


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Texto por
Severo Garcia
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Severo Garcia

Lisboa, outubro de 2026.

 

Há casas em que a infância não termina: apodrece. Os anos passam, os rapazes crescem, os ombros alargam-se, a voz engrossa, mas, dentro de certas paredes, permanece a criança que escuta os passos do pai e procura adivinhar, pelo peso de cada passada, a desgraça que se aproxima.

 

Nas Laranjeiras, em Lisboa, a madrugada de 29 de abril de 2025 terá sido o termo de uma longa história de violência doméstica. Dois irmãos, de vinte e um e vinte e quatro anos, mataram o pai. Segundo os relatos do caso, recorreram a um martelo e a uma faca; a morte terá ocorrido por asfixia. Disseram, ou terão feito constar em sua defesa, que queriam proteger a mãe. Também eles, segundo as informações divulgadas, eram vítimas das agressões daquele homem.

 

Eis uma dessas desgraças em que a linguagem da justiça, tão precisa para nomear os atos, parece embaraçada quando lhe pedem que explique os anos que os precederam.

Que espécie de noite é necessária para que dois rapazes olhem para o pai e já não reconheçam nele senão o perigo?

Não me atrevo a responder. Basta-nos, por ora, o que se sabe: houve um homem morto, dois filhos implicados na sua morte e uma mãe cuja alegada condição de vítima está no centro da explicação apresentada para o crime.

 

Depois, veio o armário.

 

O corpo permaneceu escondido durante três dias, segundo as notícias. Três dias: tempo bastante para que uma cidade acordasse, abrisse as suas lojas, apanhasse os seus transportes e se ocupasse dos seus pequenos compromissos, enquanto, numa casa das Laranjeiras, a morte aguardava que alguém lhe desse nome.

 

Há qualquer coisa de terrível nessa proximidade entre o extraordinário e o quotidiano. A tragédia não precisa de um castelo, de uma família nobre arruinada ou de um marido traído para acontecer. Pode morar num apartamento comum, entre os móveis de uma sala, os pratos de uma cozinha e as portas que os vizinhos não ousam abrir. A desgraça não anuncia a sua chegada; muitas vezes, é a vizinhança que só lhe conhece a existência quando já não há nada a fazer.

O caso seguirá para julgamento por um tribunal de júri. O Ministério Público terá pretendido uma pena de vinte e cinco anos de prisão, segundo a informação fornecida pelos jornais.

Fiquei atônito quando soube da notícia.

 

A lei terá de examinar os fatos, estabelecer responsabilidades e decidir até onde alcança a defesa invocada pelos irmãos. Não lhe será permitido substituir as provas por piedade, nem transformar a violência anterior numa absolvição automática. Mas também seria pobre uma justiça que se contentasse em contar os golpes da última madrugada sem procurar compreender a história que os antecedeu.

Se os irmãos mataram o pai, terão de responder por esse ato. Se foram vítimas de violência durante anos, esse passado também deverá ser apurado e considerado nos termos da lei. Uma coisa não apaga necessariamente a outra. A condição de vítima não torna inocente todo o ato praticado em seu nome; a gravidade de um crime, por sua vez, não torna irrelevante o sofrimento que o precedeu.

Talvez seja essa a parte mais amarga desta história: a possibilidade de que, no mesmo processo, a sociedade tenha de reconhecer duas formas de sofrimento sem permitir que uma sirva de desculpa para ignorar a outra.

 

Camilo Castelo Branco, escritor português, que conhecia como poucos as paixões levadas ao extremo e os tribunais íntimos da consciência, talvez encontrasse aqui matéria para uma das suas ironias sombrias. Não porque pudesse antecipar o destino destes homens, mas porque sabia que a família, quando despojada das virtudes que proclama, pode tornar-se o cenário mais impiedoso das paixões humanas.

 

E a justiça, que chega depois do sangue, terá de fazer aquilo que o martelo não pôde: distinguir a brutalidade do desespero, a intenção do resultado, a culpa das circunstâncias.

 

Naquela casa, porém, nenhuma sentença devolverá os dias perdidos à mulher, a infância aos filhos ou a vida ao pai. A justiça poderá decidir o destino dos irmãos. Não poderá reconstituir a família que existia antes da tragédia.

 

Há casas de onde se foge pela porta. Outras, mais terríveis, são aquelas de onde ninguém consegue sair, mesmo depois de crescer.

 

E há noites em que os filhos deixam de temer o pai.

 

Não é nesse instante que começa a tragédia.

 

É muito antes, quando o medo aprende a chamar-se família.

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