na nuvem


Publicado em
Texto por
Severo Garcia
Imagem por
Denise Nova Cruz

(…)

Ela está nervosa para partir. Queria ir embora. Mas, para onde? O que lhe afligia era a distância de sua casa? Talvez fosse tempo demais longe do que ainda reconhecia como seu. Isso era perceptível até para desconhecidos. Escolhia palavras deslocadas do seu objeto. Ainda que alguma coisa sempre nos escape à compreensão, o que ela dizia não interrogava; ao contrário, encerrava a hipótese de que algo estava errado, fora de lugar.

Carregava um olhar ausente, como se o brilho tivesse sido ofuscado por alguma luz opaca. Os olhos pareciam perdidos, vagando por um lugar turvo. Estava parada em frente ao portão da minha casa. Imóvel, como se esperasse que alguém chegasse, abrisse, e então pudesse caminhar livremente. Se pudesse, caminharia em qual direção?

Como no dia em que fomos ao supermercado e, por um instante, enquanto eu pegava algo na prateleira, ela seguiu caminhando sem rumo. À procura de sabe-se lá o quê. Um movimento sem objetivo aparente. Eram passos lentos, mas constantes, que observei nesse curto intervalo de tempo, enquanto a seguia para ajudá-la a perceber que eu estava ao lado dela.

Não sei quando comecei a compreender a melancolia e o luto que atravessavam aquele momento da minha vida. A demência da minha mãe me arrastou para uma necessidade quase compulsiva de escrever sobre nós, sobretudo sobre o que ainda poderia ser, sobre o que foi e nunca mais será. Escrever e conviver com ela tornaram-se uma forma de memória e de criação.

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