(…)
No início, havia lapsos de ausência. Perto do final, lapsos de presença.
Como se fossem duas, que não se encontravam.
A que dominava o corpo era persistente; a outra, doce e frágil.
E não havia alguém dizendo “corta”.
Terminava a cena daquela que era estranha, que vivia na ausência e não carregava história alguma, e começava a cena daquela que era doce e familiar.
Não há diretor ou diretora para um roteiro que não tem “início, meio e fim”.
A vida com alguém que tem demência é um cruzar de fronteiras invisíveis.
A frase que minha mãe mais usa é “pode ser”.
“Pode ser” é sofisticado, elegante e educado. Alguns podem pensar que é dócil, acrítico, servil. Poderia ser outra palavra. Ou frase.
E se fosse “não”?
Ou então: “eu preferiria não fazer”?
Até onde as coisas ainda seriam possíveis?
Digamos que eu perguntasse: você quer ler?
E ela dissesse: eu preferiria não fazer.
Seria como um barco encalhado. Preso.
Um meio de transporte que perde todo o sentido quando está preso à terra.
Então, “pode ser” é movimento, ainda que em círculos.
O que é preferível: a inércia ou mover-se, mesmo em voltas infinitas?