lapsos


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Texto por
Severo Garcia
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Severo Garcia

(…)

No início, havia lapsos de ausência. Perto do final, lapsos de presença.
Como se fossem duas, que não se encontravam.

A que dominava o corpo era persistente; a outra, doce e frágil.
E não havia alguém dizendo “corta”.

Terminava a cena daquela que era estranha, que vivia na ausência e não carregava história alguma, e começava a cena daquela que era doce e familiar.

Não há diretor ou diretora para um roteiro que não tem “início, meio e fim”.
A vida com alguém que tem demência é um cruzar de fronteiras invisíveis.

A frase que minha mãe mais usa é “pode ser”.

“Pode ser” é sofisticado, elegante e educado. Alguns podem pensar que é dócil, acrítico, servil. Poderia ser outra palavra. Ou frase.

E se fosse “não”?
Ou então: “eu preferiria não fazer”?

Até onde as coisas ainda seriam possíveis?

Digamos que eu perguntasse: você quer ler?
E ela dissesse: eu preferiria não fazer.

Seria como um barco encalhado. Preso.
Um meio de transporte que perde todo o sentido quando está preso à terra.

Então, “pode ser” é movimento, ainda que em círculos.

O que é preferível: a inércia ou mover-se, mesmo em voltas infinitas?

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