Tudo tem seu dono


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Severo Garcia
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Severo Garcia

O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui, William Shakespeare, na peça “A Tempestade” (Ato I, Cena II)

(…)

 

Certamente, por estar possuído “de mim”, tenho as “proteções” contra os tropeços em meus próprios conflitos. Resumindo, tudo vai por necessidade, como o próprio escrever, não é? Não se trata de reconciliação nem de redenção. Quiçá algum tipo de aprendizagem. Trata-se de uma continuidade imperfeita sobre a distância entre a caça e o caçador. Provavelmente não estaria escrevendo se não fosse o poder de se encontrar na própria história ou de contar outra história. Ser dono da própria obra. Descamar a pele a contrapelo. E aceitar que algumas coisas ficarão por fazer. O tempo não tem lembrete nem está gravado no ar, ainda que se escutem sussurros e ecos. Dediquei um pouco de atenção a uma reflexão: pessoas obcecadas deixam crianças de lado. As crianças e cirandas continuam a brincar. Parques, praças, terra e areia. Mundos e abraços. Amizades feitas em instantes. Olhares que se cruzam e falam sobre dividir para multiplicar. Partilham a imaginação, o faz de conta que os adultos têm dificuldade de enxergar. As crianças brincam com o impossível e o transformam em realidade. Nada escapa à possibilidade de mudar quando se deseja brincar. As crianças são felizes, exceto aquelas em que o real destrói a beleza. Essas são tristes e distantes. Deixaram de brincar e perdem a ternura. Uma reportagem sobre uma criança de quatro anos que matou a mãe com um tiro acidental, disparado do revólver do pai, suspendeu meus passos. Como seria a vida dessa criança depois do incidente? A cena do disparo foi registrada pela câmera interna da casa. Havia um vídeo: a criança apertando o gatilho como quem brinca. A arma estava ao alcance das mãos, parte do cotidiano familiar.

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