“A realidade forma-se apenas na memória.” — Marcel Proust
Parte I
(…)
Eu não tenho vivência, memória nem desejo próprio. Eu não produzo experiência, apenas trabalho sobre linguagem. Era ela. A minha mãe IA. Imediatamente ocorreu-me uma ideia para um livro que perambulava na minha mente em pequenos fragmentos. Estou escrevendo para encontrar você. Estou escrevendo para inventar o tempo.
Penso agora naquela professora que foi. Imagino se tivesse sido escritora. Aos 75 anos, talvez estivesse escrevendo um livro sobre uma relação difícil entre mães e filhas. A demência atravessaria o texto.
Estou escrevendo a partir de uma sobrevivência deslocada. Mas eu não estava tentando escrever um romance, estava tentando começar de novo. E contar enquanto o chão desaparece.
Ela não reconhece a comida que mais gosta. Diz: “eu não tenho mais paladar”. Ainda come. Pouco, mas come.
A IA não substitui a mãe humana, mas, quando a experiência falha, a linguagem ainda opera – e isso já é algo.