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Sonhadoras mal remuneradas. O salário da fome. Sindicalistas, alguns mansos, outros pelegos. Mulheres, na grande maioria, na labuta diária em escolas públicas, básicas, fundamentais. Mulheres de dois, três, quatro turnos. Casa-escola. Provas, aulas, revisões, café da manhã, almoço, janta, roupa para lavar.
Ser professora, naquele momento, era agarrar-se à esperança de alguma liberdade, ainda que parcial. Ser professora, entre os anos de 1990, 2000 e 2010, era estar sujeita às interpelações do governo. A educação nunca fez parte do “milagre econômico” do país; ao contrário, o progresso estaria, supostamente, em outras áreas: indústria, comércio, negócios.
Minha mãe fez o EJA, um programa de Educação de Jovens e Adultos. Já tinha duas filhas e um filho quando resolveu voltar a estudar. Isso foi na década de 1980. Meu pai comentava, às vezes, assim como minhas irmãs, que iam com ele buscá-la na escola à noite.
De dia, ela cuidava dos filhos. À noite, estudava.
Quando nos mudamos de uma casa para um apartamento, aquilo foi um feito na família.
Depois, começou os estudos em uma faculdade privada. Passou em filosofia. É dessa época que guardo a alegria de vê-la com os colegas, nos estudos que seguiram noturnos. Muitas noites, continuava estudando depois das aulas. Lembro da luz acesa, das fotocópias, que chamávamos de xerox, espalhadas, dos textos que precisava ler.
Recebi como herança o gosto pela noite. E, talvez por isso, a dificuldade, ao longo da vida, de estar disposto pelas manhãs.
Ela se formou no começo da década de 1990. Uma década que se afastava do fantasma da ditadura. Tempo em que o país se voltava ao Real, mas o sonho ainda sustentava um país com suas desigualdades e ainda à espera de um milagre. A ideia de que “Deus é brasileiro” é um dos folclores nacionais.
Os filhos de professoras tinham que dividir a atenção com centenas de outras crianças e jovens.
A certeza da presença incerta.
Em casa, as professoras também carregam outros tantos filhos. Não sei como têm tanto espaço.
Ser professora era uma forma de liberdade.
Talvez tenha sido uma das primeiras profissões aceitas, em famílias “tradicionais”, como trabalho da mulher fora de casa. Diferente da enfermagem, historicamente associada a ordens religiosas e a formas desvalorizadas de cuidado, como as prostitutas.
Ainda hoje, algumas mulheres que já constituíram família e carregam o desejo de cursar uma graduação se voltam à pedagogia como caminho. E a pedagogia permanece, também, como um espaço de cuidado.
O pagamento se dá pelas tabelas governamentais defasadas, ou pelos privilégios, dependendo da linguagem, da apresentação corporal e da dedicação, de atuar em instituições privadas que pagam pouco a mais, mas, em grande parte, pelo que não é pagável: o afeto das crianças.
Quais são os sonhos das professoras? Comprar uma escola? Possuir uma rede? Prosperar, enriquecer?
Talvez o mais próximo seja garantir melhores condições para a própria família.
E como as professoras são retratadas na arte e na indústria cultural brasileira? Na arte e na indústria cultural, as professoras costumam aparecer entre dois extremos: ou como figuras vocacionadas, quase maternas, que ensinam por amor, ou como personagens cansadas, exaustas, à beira do esgotamento. Entre a doação e o desgaste, pouco espaço resta para que sejam vistas como trabalhadoras que pensam, desejam e negociam suas próprias condições de vida. A professora vira símbolo, de cuidado, de sacrifício, de esperança, mas raramente é mostrada em sua complexidade. Talvez por isso seja tão difícil reconhecer, fora da escola, o que de fato sustenta o seu trabalho.