(…)
Téc-téc-téc. Croc-croc-croc. Tum. Clac-clac.
A máquina martela os ouvidos.
Como cheguei até aqui? Foi ela. Ela e minha fantasia. Foram elas, as avós das minhas avós, e toda minha história familiar que me impulsionaram a estar dentro desta máquina de ruídos. Eram tantos que cheguei a cochilar, como se estivesse dentro de uma cápsula, protegido do mundo. Um paradoxo: dormir enquanto o mundo está ruindo.
Dentro daquela caixa de metal, sem saber, reservei um momento íntimo e profundo para mim. Sem qualquer interferência, talvez por quinze ou vinte minutos – tempo só para mim – cochilei e aceitei a solidão.
Para alguns, a ressonância pode ser uma experiência desconfortável e fóbica. Para mim, foi como se tivesse recebido um convite para desligar. Mas acendi as ideias. E foi assim que achei que deveria começar a contar a nossa história.
Como se narra a vida de uma mulher comum? O que fazer com as memórias da minha mãe?
A forma como encaramos as situações indica os caminhos que estamos atravessando. É pela palavra que acesso o tempo das histórias, um caminho entre distâncias e esquecimentos. E, às vezes, é na ausência que tudo parece mais vivo.
Só posso escrever essas histórias como filho. Planejo uma arqueologia de silêncios e sons. Um sotaque gaúcho, do interior, do sul do Brasil. Foi aquela máquina ruidosa que serviu de marco zero.