As reuniões semanais


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Texto por
Severo Garcia
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Severo Garcia

(…)

Ao sair de Santa Maria, aos vinte e cinco anos, assumi, ainda que de modo não declarado, o luto inevitável daquilo que deixava para trás. Era cedo demais para compreender o que já se inscrevia em meu corpo. Seria intuição? Ou a percepção silenciosa de que era preciso mover-se?

Partir também era um gesto de resistência: lutar para não repetir atitudes, não reproduzir decisões, não me deixar capturar pelos mesmos roteiros. Mas como escapar dos descaminhos que atravessam uma família? Como distinguir herança de destino?

O convívio familiar pode, ao mesmo tempo, amparar e distorcer a realidade. Oferece abrigo, mas também molda silêncios, delimita horizontes, organiza versões do mundo. Mesmo quando se vai embora, a cidade natal continua a existir dentro de quem partiu. Permanece como um farol: ainda que distante, projeta um feixe de luz que atravessa a noite e alcança o horizonte da memória.

O professor inglês Brian Hurwitz disse certa vez a uma grande amiga que há quem sustente que tudo o que existe são narrativas. E ela acrescentou: a vida, o tempo, o mundo, tudo é narrativa. Talvez seja isso. Vida é variação. É reescrita contínua do que fomos, do que somos e do que ousamos.

Nem sempre se compreende com nitidez certos momentos e movimentos da vida. As reuniões com minhas duas irmãs tornaram-se uma forma de sustentar o que parecia desabar, menos um drama, mais um exercício de permanência. Aos sábados, entre sete e meia e dez da manhã, encontrávamo-nos on-line para falar de nossos pais. Havia algo de metódico naquele encontro semanal: uma tentativa de organizar o presente diante da incerteza.

Debatíamos perguntas concretas: qual o melhor caminho para cuidar de uma pessoa com demência? Como decidir sem reduzir a vida do outro a protocolos? Com o tempo, tornou-se inevitável reconhecer que cuidar ou ajudar a cuidar exige colocar o passado em diálogo com o presente. As relações não começam quando a doença se instala; elas já trazem marcas, tensões, silêncios.

Se houve desencontros com a mãe, com o pai, entre irmãos, como atravessar esses desajustes sem permitir que sabotem o agora? Como cuidar sem reencenar, de forma inconsciente, antigas disputas? As reuniões semanais não resolviam tudo. Mas criavam um espaço de palavra onde o passado podia ser nomeado e, talvez, reposicionado.

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