No começo de 2023, após longas férias em Buenos Aires e visitas a livrarias e sebos, instalei em mim o desejo longínquo de organizar (não ousaria dizer escrever) um livro dedicado às dedicatórias.
Guardo dessa época o que anotei num bloco de notas do celular, o que provavelmente seria o capítulo um: “teu nome gravado em mim”.
A descrição da primeira folha de um dos livros que folheei era a seguinte:
“Meu bem
Fico feliz de estarmos juntos.
Um beijo gostoso de “namorada”
Gilda – 12/06/1985”
Simples. Sem enigmas ou charadas. Íntima. Gostei de ter em minhas mãos aquela memória. Microbiografias escondidas dentro dos livros.
Com o passar dos meses e anos, a ideia do livro das dedicatórias ficou perdida no bloco de notas. Mas, cada vez que pegava um livro emprestado, ou mesmo pela satisfação em percorrer as pequenas bibliotecas dos meus amigos e amigas, o fetiche das dedicatórias reaparecia. Ler esses fragmentos no tempo era como espiar a vida.
Os nomes, as datas, os lugares, texturas em forma de texto. Retratos. Presentes. Núcleos de cores, caligrafias, códigos, artefatos. Para mim, um conjunto de narrativas, arte em abundância num livro, uma aba endereçada.
Quantas mãos, olhos e sabe-se lá o que mais passaram pelos cantos e orifícios de um livro. Quantas páginas sumiram e foram rasgadas com uma dedicatória? Um amor desiludido. Um aniversário fraterno. Um tipo de mensagem indireta. Autoajuda. Auto-crítica. Autossuficiente autoinsuficiência. Autor. Autora. Biblioteca particular. Biblioteca pública.
Há também dedicatórias dos próprios escritores e escritoras. Geralmente, brandas, polidas. Dedicatórias que foram para a UTI, para a sala de espera, para servir de suporte.
Ando numa fase em que escrevo delicadas dedicatórias para mim mesmo. Como se pudesse esperar que alguém, ao abrir o livro, encontrasse uma peça ínfima do que pensei ou senti ao abrir pela primeira vez aquele livro. Crer que o que escrevo pode afetar alguém em algum tempo, ainda que não haja como competir com os cupins e as traças.