Um dos dias mais impactantes para mim aconteceu numa segunda-feira à tarde, durante o cine-debate mensal que realizávamos no presídio. Exibimos Apocalipse nos Trópicos, um documentário que disseca a relação íntima entre política e religião no Brasil. Primoroso: desmonta, com rigor, essa engrenagem poderosa que sustenta parte da vida pública contemporânea. Nas falas de pastores e políticos, nas imagens sobrepostas, torna-se evidente uma inseparabilidade que molda tanto estruturas coletivas quanto subjetividades. Há ali uma carga moral que convoca: até que ponto sabemos — ou queremos saber — o que fazemos quando nos movemos sob essa combinação de fé, poder, status e lealdade?
Pensei inevitavelmente nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. As pessoas que invadiram o Congresso sabiam realmente o que estavam fazendo? Ou sabiam bem demais e, imersas no mantra “Deus, pátria e família”, agiam como fruto maduro de uma organização social construída ao longo de anos, num terreno nivelado por crença, vaidade e promessa de pertencimento?
Depois da exibição, imaginei que teríamos um debate acalorado. Mas não foi o que aconteceu. O silêncio imperou por alguns segundos, um silêncio pesado, quase espesso, até que lancei a pergunta óbvia: “E então, o que acharam do documentário?”
Simples, despretensioso, uma porta aberta para um diálogo incerto.
Demorou um pouco até que um dos presos resmungasse: “É tudo corrupto.”
Falou meio bravo, bufando baixo, e mesmo com as mãos e os pés acorrentados fez um gesto brusco, como se fosse estapear alguém à sua frente. A tensão se espalhou. Ninguém disse nada por alguns instantes, até que ele se calou de vez, mergulhando num silêncio ainda mais profundo.
A indignação, então, tomou forma. Vieram queixas, desabafos. “Esses políticos são mais ladrão do que eu. Querem tudo”. A fala ecoou como denúncia e como sentença. Daí surgiu a ideia, quase unânime, de que votar não deveria ser obrigatório.
E foi nesse ponto que me surpreendi. Como assim?
A recusa do voto como recusa do mundo. A escolha de não escolher. Um tipo de alienação que, paradoxalmente, dá a sensação de controle.
Pensei se não estaríamos vivendo um tempo em que os jovens — e, de certa forma, todos nós — evitam envelhecer. Saber que vamos morrer é inevitável; saber quando morreremos, essa sim seria a resposta cobiçada. O futuro se tornou um fetiche: não existe, mas nos conduz. Vive-se o presente como quem tenta adivinhar e controlar o que virá, mesmo que o futuro imaginado seja frágil, miserável, infeliz.
No fundo, o que muitos ali diziam era: “Não vou viver muito. Para que me preocupar com isso?”
Quanto vale a vida de um preso? Para a sociedade, quase nada. “É só mais um”, diriam alguns. Quem se interessa pelo destino dos desconhecidos?
A religião, ao menos, conhece cada um deles — ou promete conhecer. Controla vida e morte, ocupa o espaço inteiro. Só não abraça quem não acredita em nada, e estes, por sua vez, não tentam convencer ninguém; apenas carregam o peso de existir sem uma proteção divina. Aceitar a ausência de Deus é um esforço quase desumano, uma tentativa de sustentar sentido onde o mundo insiste em não oferecê-lo.
Viver, percebo, é talvez o último gesto de libertação possível desse controle — seja ele religioso, político ou moral. Eles me observavam com estranhamento.
“Quem é você para trazer um documentário desses para cá?”, pareciam dizer. A política, para eles, não é debate: é prisão. É o motivo pelo qual estavam ali.
Mas a discussão não pôde continuar. O presídio precisava fechar; os convidados saem depois de certo horário. Recolhemos nossas coisas e caminhamos até a saída.
Fiquei, então, com a pergunta que atravessou: Como pode, num lugar onde tantos estão presos por decisões políticas (necropolítica, guerra às drogas, etc.), a política ser justamente o assunto do qual querem — ou precisam — se manter longe?