(…)
Não há salvação. Não há consolo. É apenas uma constatação. Alguns dirão que é verdade.
O que é, afinal, original? O que nunca foi escrito?
Fiz prometer que não sairia sem mim. Ela tinha jurado que não faria. Mas, é claro, poderia esquecer. E seria inútil buscar o certo ou errado. Melhor aceitar os buracos e as distorções.
Ela saiu. Distraiu-se. Não sei com o quê. As câmeras apenas indicaram a direção que tomou.
O que terá passado por sua cabeça? Estaria tentando voltar para a própria casa, ou para algum lugar conhecido?
O tempo, em urgências, galopa. Em cerca de trinta minutos já estávamos de volta com ela.
Não estava aflita. Ao contrário de nós.
Não soube dizer por que havia saído. Com a sutileza que sempre a marcou, riu. E a risada ajudou a dissipar a tensão. Um sorriso com olhos vazios. Era assim que ela caminhava naquele momento da vida: olhos vazios, sorrisos largos.
Um detalhe me chamou a atenção naquele dia. Minha mãe nunca foi uma pessoa religiosa. Ainda assim, havia um escapulário em seu pescoço. Assustei-me ao vê-lo. Como aquele objeto fora parar ali?
Depois do episódio do sumiço, passou a fazer o sinal da cruz no peito toda vez que escurecia. Um gesto rápido. O que aconteceu naqueles minutos que perambulou pela rua jamais será possível saber.