o luto de uma mãe


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Severo Garcia
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Severo Garcia

A voz escrita não tem idade. Memória e imaginação alicerçam passos em conjunto e reproduzem a si mesmas. Talvez por isso, à exemplo do que J.M. Coetzze formula sobre sua própria memória ficcional em “Verão”, a escrita inspira recursos do inconsciente. Ter consciência excessiva de si mesmo pode interromper certos movimentos. Nossas histórias de vida nos pertencem, dentro dos limites do real, são também construções que elaboramos como podemos. Outra ideia que, talvez, Coetzee reconheceria.

Sempre me identifiquei com aquilo que não compreendi por inteiro. Às vezes, não entender tudo é quase uma forma de salvação.

Lendo “Diário de Luto”, de Roland Barthes, conjuguei algumas reflexões sobre o luto de uma mãe. Perder uma mãe é uma dor que não se desfaz por completo. Não se aprende o momento exato em que se nasce, mas é sempre por ela que se retorna ao mundo, como se o nascimento insistisse.

Elas permanecem nas margens dos cadernos, nos gestos repetidos sem consciência, nas palavras que ainda nos atravessam quando já não há quem as diga. Quem são as mães que partem? O que delas continua?

Talvez sejam isso: uma crença silenciosa que os filhos e as filhas carregam sem saber, uma espécie de fé sem nome. Como se, ao perder a mãe, algo da própria origem se tornasse irrecuperável e oculta.

Uma mãe é uma herança .

Quando uma mãe morre, não é uma vida que se encerra, mas muitas que se deslocam, que se reorganizam.

Aceitar sua partida é compreender um pouco mais a própria morte. Reconhecer que ela já nos habita, e que, desde então, viver passa a ser também aprender a perdê-la, pouco a pouco, dentro de si. É, simultaneamente, carregar e caminhar em alguma direção alheia.

Uma mãe alimenta. Qualquer que seja a espécie, ela instintivamente dá de comer a sua prole.

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