Sem motivo ou razão definida, um dia comecei a beber água da poça.
Sim, poça d’água, mas não qualquer uma. Era a mesma por onde passava todos os dias antes de chegar à escola. Apenas minha melhor amiga sabia, pois íamos juntas todas as manhãs. A mesma poça segura.
Aquela água matava a minha sede d’alma. Não era turva nem barrenta. A superfície permanecia límpida, quase silenciosa. Ela só perguntou, na primeira vez, por que eu me acocorava para beber daquela água, naquela poça. Não soube responder.
A melhor pausa do caminho pode ser um buraco cheio d’água.
Com as mãos em forma de concha, eu bebia como se a água fosse acabar. A poça não era funda. Dias felizes eram dias de chuva ou aqueles que vinham depois das tempestades.
No final do ano, a rua foi asfaltada.
E eu nunca mais bebi daquela mesma água.