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	<title>Severo Garcia</title>
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	<description>Boas-vindas ao nosso website</description>
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		<title>a idade das semi coisas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jul 2026 16:40:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; &#160; No fim, ela fecha o livro como quem fecha uma janela durante uma tempestade que terminou. Embora a chuva ainda permaneça no cheiro das coisas. &#160; Demora alguns segundos olhando para a capa. Como se ainda estivesse assimilando <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/a-idade-das-semi-coisas/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No fim, ela fecha o livro como quem fecha uma janela durante uma tempestade que terminou. Embora a chuva ainda permaneça no cheiro das coisas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Demora alguns segundos olhando para a capa. Como se ainda estivesse assimilando o final da história. Os livros envelhecem, mas histórias disfarçam melhor o seu tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Num instante, reabre o livro e se depara com a epígrafe:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“<em>A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever</em>”. Jean de La Bruyère</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Frase avulsa, solta dentro de uma folha aberta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Será que uma história escrita consegue fabricar uma lembrança do que nunca aconteceu?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>A filha morreu antes de aprender a envelhecer. O suicídio interrompeu todas as idades que ainda estavam por vir. Nunca soube como ela pisaria aos quarenta anos. Nunca soube se falaria alto ao telefone, se fugiria do banho nas manhãs frias, se regaria plantas por mania ou contemplação, se aprenderia a rir da própria tristeza.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sabe que escrever a memória é insuficiente, pois ela devolve apenas estilhaços, nunca a casa inteira. Há lembranças que pedem para continuar vivendo, mesmo quando doem. Outras insistem em voltar justamente porque doem. Escrever é uma forma de oferecer um corpo provisório.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por isso inventou outra mulher para contar o que jamais seria lido?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ela convivia com um vírus, alguns amores, pequenas vergonhas, uma sucessão de dias comuns e a estranha habilidade de continuar respirando sem exageros. Deu-lhe o tempo que nunca teve.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez nenhuma daquelas páginas fosse verdadeira. Talvez fossem a única verdade possível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Às vezes, imaginava que ela própria já não era exatamente uma pessoa. Era um armário onde guardava vozes emprestadas. Uma cadeira ocupada. Tinha tentado ser apenas um móvel, silencioso, imóvel, indiferente ao peso das lembranças. Mas os móveis não escrevem. E justamente por isso nunca conseguiu ser um.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Escrever foi o som da sua quietude. A literatura, descobriu tarde demais, não ressuscita ninguém. Apenas concede aos mortos uma oportunidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ela fecha o livro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Lá fora, um cachorro latia para uma árvore.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A árvore, talvez por delicadeza, também carregava uma memória impossível e permaneceu em silêncio. Feito um baobá.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>epígrafes</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/epigrafes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2026 16:50:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Frases]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; [livro sobre a minha mãe] &#160; “Não quero falar disso por medo de fazer literatura &#8211; ou sem estar certo de que não o será -, embora, de fato, a literatura se origine dessas verdades.” &#160; Roland Barthes (2011) <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/epigrafes/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>[livro sobre a minha mãe]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">“<em>Não quero falar disso por medo de fazer literatura &#8211; ou sem estar certo de que não o será -, embora, de fato, a literatura se origine dessas verdades</em>.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Roland Barthes (2011)</p>
<p>Diário de luto</p>
<p>30 de outubro de 1977, p. 23.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">“<em>Escrever para lembrar? Não para me lembrar, mas para combater a dilaceração do esquecimento na medida em que ele se anuncia como absoluto. O &#8211; em breve &#8211; ‘nenhum rastro’, em parte alguma, em ninguém.</em>”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Roland Barthes (2011)</p>
<p>Diário de luto</p>
<p>Por volta de 12 de abril de 1978, p. 110.</p>
<p style="text-align: right;">“<em>Não esquecemos, mas algo de átono se instala em nós</em>.”</p>
<p>Roland Barthes (2011)</p>
<p>Diário de luto</p>
<p>30 de janeiro de 1979, p. 223.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">“<em>Numa biografia é preciso chegar a um equilíbrio entre narrativa e opinião</em>.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>J. M. Coetzee (2010)</p>
<p>Verão, p. 224.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>ah não quero filosofar</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/ah-nao-quero-filosofar/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 12:44:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Poesias]]></category>
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					<description><![CDATA[quero um amigo. meio. meio deprê. meio caolho. meio gordo. quase bonito. que me aguente. porque, se não, eu viro sumo. sumo de laranja chupada. sumo de sumô pós-bariátrica. meio lindo. meio chato. meio engodo. meio. meiota. meio idiota. meio <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/ah-nao-quero-filosofar/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>quero um amigo.</p>
<p>meio.</p>
<p>meio deprê.<br />
meio caolho.<br />
meio gordo.</p>
<p>quase bonito.</p>
<p>que me aguente.</p>
<p>porque,<br />
se não,</p>
<p>eu viro sumo.</p>
<p>sumo<br />
de laranja chupada.</p>
<p>sumo<br />
de sumô<br />
pós-bariátrica.</p>
<p>meio lindo.<br />
meio chato.<br />
meio engodo.</p>
<p>meio.</p>
<p>meiota.</p>
<p>meio idiota.</p>
<p>meio poeta.</p>
<p>meio leitor.</p>
<p>meio severo.</p>
<p>inteiro</p>
<p>amor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Escrito a dois, com Denise Nova Cruz. </em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>passando a perna</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/passando-a-perna/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jul 2026 23:44:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Ao banhar-me, costumo pensar o que não penso. É, quase sempre, uma oportunidade para refletir sobre o que me arranca e escorre pelas mãos: o tempo que caminha e se move no que vivo. Hoje lembrei dos mestres. Daqueles <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/passando-a-perna/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Ao banhar-me, costumo pensar o que não penso. É, quase sempre, uma oportunidade para refletir sobre o que me arranca e escorre pelas mãos: o tempo que caminha e se move no que vivo.</p>
<p>Hoje lembrei dos mestres. Daqueles e daquelas que ensinam sem sequer se anunciarem. Livros, filmes, lugares, trilhas e pequenos detalhes que não estão explícitos. São presentes implícitos. Aquele livro do Foucault que hoje está gasto. Aquele filme francês sobre as comunas francesas, com Gerard Depardieu. O álbum Araçá Azul, do Caetano Veloso. A poesia do Chacal.</p>
<p>Mas talvez seja tudo fruto da minha imaginação, da minha experiência de uma realidade fantasiosa. Não sei. Tenho tantos planos que mestres e mestras andam juntos na minha consciência.</p>
<p>Com o tempo, tornei-me professor, poeta, pai e pesquisador, não necessariamente nessa ordem. Esse quadrilátero me mantém numa ventania. É o que sou. É no que estou. Cambiando. Bailando.</p>
<p>Qual dessas funções sumirá com o tempo? Não sei. Calma. Não sabemos.</p>
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		<title>travessia</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/travessia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jul 2026 00:17:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Poesias]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; poesia adormece / perturba páginas / pensamentos &#160; música movimenta / sai ares / ambientes &#160; teatro tomba / traveste travessias / peles &#160; pintura traduz / atravessa gentes / formas &#160; &#160; &#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>poesia</p>
<p>adormece / perturba</p>
<p>páginas / pensamentos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>música</p>
<p>movimenta / sai</p>
<p>ares / ambientes</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>teatro</p>
<p>tomba / traveste</p>
<p>travessias / peles</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>pintura</p>
<p>traduz / atravessa</p>
<p>gentes / formas</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Porca Gorda II</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/porca-gorda-ii/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2026 23:20:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Minha alma é gorda. O corpo emagrece. Engorda. Envelhece. A alma, não. Aprendi cedo. Barriga vazia faz morada. Não vai embora. Só muda de lugar. Até hoje entro num mercado. Esqueço o preço. A mão sabe antes de mim. <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/porca-gorda-ii/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Minha alma é gorda.</p>
<p>O corpo emagrece. Engorda. Envelhece. A alma, não.</p>
<p>Aprendi cedo. Barriga vazia faz morada. Não vai embora. Só muda de lugar.</p>
<p>Até hoje entro num mercado. Esqueço o preço. A mão sabe antes de mim. Não é vontade. É susto.</p>
<p>O menino ainda mora aqui.</p>
<p>Sonhava com uma mesa comprida. Um armário sem fundo. Um pão inteiro. Um prato servido sem pergunta. Sem contagem. Sem fim.</p>
<p>Descobri depois que fartura também mente. Enche o armário. Nem sempre o peito.</p>
<p>Eu e o dinheiro nunca fomos íntimos. Entre nós existe uma barriga antiga.</p>
<p>Ainda sonho.</p>
<p>Que me esqueçam onde a comida não acaba.</p>
<p>Comer.</p>
<p>Até o medo perder a fome.</p>
<p>Até a escassez esquecer meu nome.</p>
<p>Até minha alma.</p>
<p>Pesada.</p>
<p>Dormir.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Rio de Dentro</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/rio-de-dentro/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2026 01:02:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Prosas Poéticas]]></category>
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					<description><![CDATA[Os pés contam. Contam o tempo. Contam o jeito de pisar no mundo. Cada rachadura, uma travessia. &#160; Há um rio correndo dentro de toda gente. Um rio de dentro. Corre manso. Às vezes, transborda. Carrega barro, infância, sobrenome. Carrega <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/rio-de-dentro/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Os pés contam. Contam o tempo. Contam o jeito de pisar no mundo. Cada rachadura, uma travessia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Há um rio correndo dentro de toda gente. Um rio de dentro. Corre manso. Às vezes, transborda. Carrega barro, infância, sobrenome. Carrega aquele nome pequeno que só quem ama sabe dizer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Porque um nome nunca nasce sozinho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Numa cidade pequena, numa estrada de chão, numa terra antiga, um nome é uma aldeia inteira. É avó. É avô. É quem veio antes e continua chegando. É quem ainda nem nasceu, mas já tem lugar à mesa.</p>
<p>Morre um. Nascem muitos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem parte não leva a vida consigo. Espalha. Vira lembrança na boca de um. Vira gesto na mão de outro. Vira coragem. Vira história repetida em volta do fogo, do café, da mesa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A comunidade inteira muda de lugar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Chora. E continua.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O rio não para porque uma margem desmorona.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ele inventa outro caminho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por isso ninguém vai embora de todo.</p>
<p>Fica no jeito de rir. Na maneira de cortar o pão. No silêncio que só a família entende. Nos nomes que chamam outros nomes. Nos filhos que recebem o nome dos avós. Nos irmãos que carregam a ausência como quem carrega um sobrenome.</p>
<p>Um nome nunca pertence a uma pessoa só. É uma palavra coletiva.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A vida é uma palavra curta dentro de um nome.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando alguém pronuncia um nome, não chama apenas uma pessoa. Convoca uma linha. Faz voltar quem parecia distante. Faz nascer outra vez quem nunca deixou de correr por dentro dos nossos rios.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ser nascente na vida de alguém. Um dia continua correndo dentro de quem fica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Para Dalvan Antônio de Campos</em><br />
.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Adamastor</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/adamastor/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jul 2026 01:03:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; I &#160; Depois do constrangimento do fracasso, ouviu a sentença antes que a porta de casa se fechasse: “Você fecha a boca”. Saiu conduzido pelo próprio olhar, como se a rua ainda pudesse lhe oferecer alguma salvação. Caminhou entre <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/adamastor/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>I</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Depois do constrangimento do fracasso, ouviu a sentença antes que a porta de casa se fechasse: “Você fecha a boca”.</p>
<p>Saiu conduzido pelo próprio olhar, como se a rua ainda pudesse lhe oferecer alguma salvação. Caminhou entre a calçada e a lama sem conseguir desalojar a culpa. Tudo havia sido adiado.</p>
<p>Naquele tempo, morava do lado da ponte e tudo parecia encalhar quando passava por ali.</p>
<p>Na Rua do Crematório dos Animais, perto de Belém Novo, em Porto Alegre, decidiu partir.</p>
<p>Fátima era a salvação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>II</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando precisava, ela não aparecia. Quando aparecia, já não era preciso.</p>
<p>Uma vez abatida, disse : “Eu apanhava por lazer do meu pai”.</p>
<p>Depois disso, as suas ausências nunca mais pareceram as mesmas.</p>
<p>A dependência torna o outro importante.</p>
<p>Fátima, cadê você?</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Trieste</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/trieste/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Jun 2026 13:40:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Meu coração de metal veio do interior do mundo. De uma cidade pequena, dessas que ninguém procura, dessas que desaparecem do mapa antes de serem desenhadas. Um dia cheguei às ruas imundas da cidade grande. Caminhei entre valas, fumaça <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/trieste/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Meu coração de metal veio do interior do mundo.</p>
<p>De uma cidade pequena, dessas que ninguém procura, dessas que desaparecem do mapa antes de serem desenhadas. Um dia cheguei às ruas imundas da cidade grande. Caminhei entre valas, fumaça e você.</p>
<p>Onde você mora?</p>
<p>Minha desgraça não atravessa as próprias lágrimas. Procuro meu destino sob um céu fechado. Danço numa rua sem música e sem saída.</p>
<p>Então você desaparece.</p>
<p>Você levou tudo.</p>
<p>Ou talvez não.</p>
<p>Passo diante de uma banca de frutas e pego qualquer coisa ao alcance da mão. Mastigo sem sentir gosto.</p>
<p>Você foi embora.</p>
<p>Foi embora?</p>
<p>Ou foi levada à força?</p>
<p>Não sei.</p>
<p>Então tudo é meu.</p>
<p>Fiquei trancafiado naquele lugar isolado. Gente distante. Vozes distantes. Vaguei entre incômodos. Eu não sou daqui.</p>
<p>Tudo é meu.</p>
<p>Você se foi.</p>
<p>Tudo é meu.</p>
<p>Guardei no peito cada pequeno objeto abandonado: chaves, fotografias, recibos, nomes.</p>
<p>Tudo meu.</p>
<p>Você foi embora.</p>
<p>Ou será que foi levada?</p>
<p>Quanta coisa aconteceu naqueles anos.</p>
<p>Quem foi levado?</p>
<p>Quantos?</p>
<p>Para onde?</p>
<p>Não sei.</p>
<p>As casas permaneceram. As ruas permaneceram. Os objetos permaneceram.</p>
<p>Você não.</p>
<p>Então tudo é meu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Inspirado nas histórias de Roberto Tykanori.</em></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>mentiras</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/mentiras/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Jun 2026 03:11:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[[…] &#160; Menti para ela. O esquecimento mata o hospedeiro. No começo não foi fácil. Minúsculas mentiras. Até que o tempo começou a desabar. Gestos miúdos do cotidiano. Ela arrancava os botões das roupas, não sabia como manusear as próprias <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/mentiras/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>[…]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Menti para ela. O esquecimento mata o hospedeiro.</p>
<p>No começo não foi fácil. Minúsculas mentiras. Até que o tempo começou a desabar. Gestos miúdos do cotidiano. Ela arrancava os botões das roupas, não sabia como manusear as próprias mãos. Começamos a mentir até esquecermos de colocar a história em ordem. Os dias da semana foram perdendo a importância. Protegendo do susto, da surpresa, da lacuna. Mas é impossível preencher todos os espaços sem esquecer de quem somos.</p>
<p>Ela confundia garfo com faca, faca com garfo. Comida na boca, boca na comida. Embaralhava as roupas, os esmaltes, as cores, as regras. Não é fácil ver alguém se perder de si.</p>
<p>A minha mãe, com sua coragem e vontade, trançava suas pernas pelas ruas da cidade. Nunca desejou aprender a dirigir, mas isso nunca a impediu de tomar ônibus. Mesmo no último ano antes da aposentadoria compulsória, aos 75 anos, seguia de casa para a escola.</p>
<p>Entre tantos sinais, há um dia que recordo com nitidez: sua aposentadoria.</p>
<p>Fomos em família prestigiar e testemunhar aquele momento. Junto com suas netas, levei-a até o local onde se despediria do trabalho como professora. Estava animada; ainda sabia que se tratava de algo importante. Acho que, naquela época, negávamos qualquer diagnóstico, embora já percebêssemos seus lapsos e suas “atrapalhações”, como costumávamos dizer.</p>
<p>Minha mãe, antes do diagnóstico, teve muitas dessas atrapalhações. Assim como a mãe dela. Atrapalhação hereditária.</p>
<p>Para mim, aquele dia marcou uma virada, outra fase da sua vida.</p>
<p>Quando a atendente da secretaria de educação pediu que preenchesse uma ficha com seus dados pessoais, minha mãe pegou a folha, sorriu e, com a simpatia de sempre, pediu que eu a ajudasse.</p>
<p>No início, sorri também. Achei que fosse uma brincadeira. Mas ela continuou me olhando, esperando.</p>
<p>Foi então que percebi: ela precisava de ajuda para preencher os próprios dados.</p>
<p>Preenchi a ficha. Ela assinou.</p>
<p>Comemoramos, tiramos algumas fotografias e voltamos para casa.</p>
<p>Foi naquele dia que menti para mim.</p>
<p>Acreditei na fantasia de que aquele lapso não era real.</p>
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