Porca Gorda II


Publicado em
Texto por
Severo Garcia
Imagem por
Michelle Garcia

 

Minha alma é gorda.

O corpo emagrece. Engorda. Envelhece. A alma, não.

Aprendi cedo. Barriga vazia faz morada. Não vai embora. Só muda de lugar.

Até hoje entro num mercado. Esqueço o preço. A mão sabe antes de mim. Não é vontade. É susto.

O menino ainda mora aqui.

Sonhava com uma mesa comprida. Um armário sem fundo. Um pão inteiro. Um prato servido sem pergunta. Sem contagem. Sem fim.

Descobri depois que fartura também mente. Enche o armário. Nem sempre o peito.

Eu e o dinheiro nunca fomos íntimos. Entre nós existe uma barriga antiga.

Ainda sonho.

Que me esqueçam onde a comida não acaba.

Comer.

Até o medo perder a fome.

Até a escassez esquecer meu nome.

Até minha alma.

Pesada.

Dormir.

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