[…]
Menti para ela. O esquecimento mata o hospedeiro.
No começo não foi fácil. Minúsculas mentiras. Até que o tempo começou a desabar. Gestos miúdos do cotidiano. Ela arrancava os botões das roupas, não sabia como manusear as próprias mãos. Começamos a mentir até esquecermos de colocar a história em ordem. Os dias da semana foram perdendo a importância. Protegendo do susto, da surpresa, da lacuna. Mas é impossível preencher todos os espaços sem esquecer de quem somos.
Ela confundia garfo com faca, faca com garfo. Comida na boca, boca na comida. Embaralhava as roupas, os esmaltes, as cores, as regras. Não é fácil ver alguém se perder de si.
A minha mãe, com sua coragem e vontade, trançava suas pernas pelas ruas da cidade. Nunca desejou aprender a dirigir, mas isso nunca a impediu de tomar ônibus. Mesmo no último ano antes da aposentadoria compulsória, aos 75 anos, seguia de casa para a escola.
Entre tantos sinais, há um dia que recordo com nitidez: sua aposentadoria.
Fomos em família prestigiar e testemunhar aquele momento. Junto com suas netas, levei-a até o local onde se despediria do trabalho como professora. Estava animada; ainda sabia que se tratava de algo importante. Acho que, naquela época, negávamos qualquer diagnóstico, embora já percebêssemos seus lapsos e suas “atrapalhações”, como costumávamos dizer.
Minha mãe, antes do diagnóstico, teve muitas dessas atrapalhações. Assim como a mãe dela. Atrapalhação hereditária.
Para mim, aquele dia marcou uma virada, outra fase da sua vida.
Quando a atendente da secretaria de educação pediu que preenchesse uma ficha com seus dados pessoais, minha mãe pegou a folha, sorriu e, com a simpatia de sempre, pediu que eu a ajudasse.
No início, sorri também. Achei que fosse uma brincadeira. Mas ela continuou me olhando, esperando.
Foi então que percebi: ela precisava de ajuda para preencher os próprios dados.
Preenchi a ficha. Ela assinou.
Comemoramos, tiramos algumas fotografias e voltamos para casa.
Foi naquele dia que menti para mim.
Acreditei na fantasia de que aquele lapso não era real.