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Perder o Paulo, meu companheiro, não foi um impacto tão devastador quanto a morte da Luiza. Já não convivíamos diariamente havia anos; o entrosamento que um casamento produz já não existia entre nós. Ainda assim, é estranho lidar com a ausência de alguém que se amou. Não é uma ferida aberta, mas permanece ali, discreta, lembrando que aquela pessoa teve um lugar na nossa história. Mesmo separados, eu nunca desejei o mal ao Paulo, pelo contrário, desejava que ambos encontrássemos alguma liberdade. Por isso, sua morte foi triste, porém suportável.
Mas perder minha filha foi outra coisa. Um desmoronamento inteiro. Comecei a evitar lugares, pessoas, qualquer rastro da antiga vida. Mudar de casa não bastava, até as ruas me falavam dela. Era um desespero que apertava a garganta. Viver se tornou insuportável. A rotina, antes tão comum, transformou-se num vazio que eu não sabia onde colocar.
A falta de sentido começou a cutucar meu pensamento, como se procurasse uma saída para aliviar a dor. Mas eu jamais teria coragem de tirar a própria vida. Mesmo mergulhada naquele sofrimento inédito, a vida ainda era um bem precioso. Eu não conseguiria renunciar à experiência de viver.
A dor, silenciosa, acabou por me apontar um caminho: afastar-me de tudo que era conhecido. Cada esquina era lembrança. Cada gesto, ausência. E a constatação era definitiva, não havia volta. A morte fecha portas; a vida, ao contrário, é esse aviso constante, uma combinação de momentos e forças que raramente compreendemos por completo.
Essa reflexão não foi epifania, revelação súbita ou iluminação. Foi, antes, a presença dura e contínua da morte da minha filha. Era como pisar num chão familiar, mas movediço, como cair num buraco negro. Esse colapso interno me pressionava por todos os lados.
Não resisti permanecer nos mesmos lugares. Afastei-me o quanto pude. Busquei a presença do mar. E me retirei, por um tempo, do convívio entre mãe e filha, para não enlouquecer.