Olho d’Água


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Severo Garcia
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Severo Garcia

 

Hoje, lavei as minhas próprias meias.

O que poderia parecer uma insatisfação, na verdade, não foi. Ao contrário. Lavar minhas próprias meias produziu em mim uma espécie de autorreposição. Como se, no gesto simples de esfregar o tecido, eu também pudesse reorganizar alguma coisa por dentro.

Lavar roupa, hoje, é mais simples do que buscar um olho d’água. Alguns botões e, particularmente, tudo se resolve. Lavar louça também pode ser um momento para esbarrar em pequenos insights, entre pratos, copos e garfos.

Mas lavar as meias é diferente.

É íntimo. Intenso.

É preciso esfregar muito mais do que se esfregam os pratos e os garfos. Há uma insistência maior, uma proximidade quase incômoda com aquilo que esteve em contato direto com o corpo.

Peças íntimas são, de algum modo, uma expressão de nós mesmos. Carregam marcas, cheiros, desgastes, pequenas sujeiras que não aparecem à primeira vista. Talvez por isso lavá-las seja também uma maneira de tocar aquilo que há de mais cotidiano, banal e, ao mesmo tempo, profundamente nosso.

Hoje, ao lavar minhas próprias meias, pensei que há coisas que só se renovam quando colocamos as mãos nelas.

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