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Não há como parir e permanecer a mesma. O nascimento de um filho instaura um antes e um depois. Literalmente, o corpo já não pode ser idêntico ao que foi. Após o parto, encontra-se outro corpo. Primeiro, um corpo dilacerado, um corpo de órgãos frouxos, deslocados. O primeiro xixi do pós-parto é a experiência de não reconhecer a si mesma: como se o corpo já não obedecesse, como se a pergunta fosse inevitável: onde está a minha bexiga?
Nada disso, com o tempo, importa a ponto de paralisar a vida. Ainda assim, não duvido de que um pós-parto atravessado por um parto traumático possa deixar uma mulher desnorteada por muitos anos. O trauma não é apenas lembrança: é aquilo que interrompe o movimento. Ele amarra o passado ao presente, fixa o olhar na intensidade da dor e, por vezes, impede o corpo – e a vida – de caminhar em direção ao amanhã