Trieste


Publicado em
Texto por
Severo Garcia
Imagem por
Denise Nova Cruz

 

Meu coração de metal veio do interior do mundo.

De uma cidade pequena, dessas que ninguém procura, dessas que desaparecem do mapa antes de serem desenhadas. Um dia cheguei às ruas imundas da cidade grande. Caminhei entre valas, fumaça e você.

Onde você mora?

Minha desgraça não atravessa as próprias lágrimas. Procuro meu destino sob um céu fechado. Danço numa rua sem música e sem saída.

Então você desaparece.

Você levou tudo.

Ou talvez não.

Passo diante de uma banca de frutas e pego qualquer coisa ao alcance da mão. Mastigo sem sentir gosto.

Você foi embora.

Foi embora?

Ou foi levada à força?

Não sei.

Então tudo é meu.

Fiquei trancafiado naquele lugar isolado. Gente distante. Vozes distantes. Vaguei entre incômodos. Eu não sou daqui.

Tudo é meu.

Você se foi.

Tudo é meu.

Guardei no peito cada pequeno objeto abandonado: chaves, fotografias, recibos, nomes.

Tudo meu.

Você foi embora.

Ou será que foi levada?

Quanta coisa aconteceu naqueles anos.

Quem foi levado?

Quantos?

Para onde?

Não sei.

As casas permaneceram. As ruas permaneceram. Os objetos permaneceram.

Você não.

Então tudo é meu.

 

Inspirado nas histórias de Roberto Tykanori.

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