Os pés contam. Contam o tempo. Contam o jeito de pisar no mundo. Cada rachadura, uma travessia.
Há um rio correndo dentro de toda gente. Um rio de dentro. Corre manso. Às vezes, transborda. Carrega barro, infância, sobrenome. Carrega aquele nome pequeno que só quem ama sabe dizer.
Porque um nome nunca nasce sozinho.
Numa cidade pequena, numa estrada de chão, numa terra antiga, um nome é uma aldeia inteira. É avó. É avô. É quem veio antes e continua chegando. É quem ainda nem nasceu, mas já tem lugar à mesa.
Morre um. Nascem muitos.
Quem parte não leva a vida consigo. Espalha. Vira lembrança na boca de um. Vira gesto na mão de outro. Vira coragem. Vira história repetida em volta do fogo, do café, da mesa.
A comunidade inteira muda de lugar.
Chora. E continua.
O rio não para porque uma margem desmorona.
Ele inventa outro caminho.
Por isso ninguém vai embora de todo.
Fica no jeito de rir. Na maneira de cortar o pão. No silêncio que só a família entende. Nos nomes que chamam outros nomes. Nos filhos que recebem o nome dos avós. Nos irmãos que carregam a ausência como quem carrega um sobrenome.
Um nome nunca pertence a uma pessoa só. É uma palavra coletiva.
A vida é uma palavra curta dentro de um nome.
Quando alguém pronuncia um nome, não chama apenas uma pessoa. Convoca uma linha. Faz voltar quem parecia distante. Faz nascer outra vez quem nunca deixou de correr por dentro dos nossos rios.
Ser nascente na vida de alguém. Um dia continua correndo dentro de quem fica.
Para Dalvan Antônio de Campos
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