arrimo de familia (história do pai)


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Texto por
Severo Garcia
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Severo Garcia

 

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Meu pai, quase como um mantra, repetia duas coisas; uma delas era anunciada quando algum “gatilho” do trabalho aparecia. Quase sempre em tom paroquial reproduzia: “o trabalho dignifica o homem”. Muito tempo depois, passado dos quarenta anos, descobri que a frase não era do meu pai. É gozado como algumas palavras parecem ter mais de uma autoria. A frase é de Max Weber.

A outra coisa que meu pai repetia era: “eu era arrimo de família”. Escutei tanta vezes essa frase que demorei para perceber a profunda importância que ela carregava. Há comportamentos e ideias com os quais crescemos e deixamos de questionar suas origens. Também somente com o tempo percebi que essa expressão – arrimo – não era cotidianamente utilizada. E palavra pouco comum só fui compreender quando passei a prestar mais atenção à palavra escrita. Provavelmente, era uma linguagem de sua época.

Arrimo de família é quem sustenta, financeiramente, a casa. Meu pai nasceu em 1947, no século XX, assim como eu, embora 36 anos depois. Ele perdeu o pai aos oito anos. O irmão mais novo ainda estava na barriga da minha avó quando meu avô, Dirceu, morreu. Conta que meu tio Roberto o chamava de “pai”. Não sei e nunca saberei o que é ser chamado de pai pelo próprio irmão.

Ele contou diversas vezes que, ainda pequeno, tinha que sair de casa (a casa merece um capítulo a parte) e vagar pela cidade para vender bergamotas e outras frutas acessíveis nos pomares e campos onde morava com minha avó e minhas tias. Sua mãe, Deolinda, minha avó que tenho vagas memórias de balbuciar algumas palavras enigmáticas que somente minhas tias, que moravam na mesma casa que ela, compreendiam. Ela ficava quase imóvel entre sua cadeira de rodas e a poltrona na sala. Resmungava coisas que jamais entendia quando criança. Ela lavava roupas no riacho perto de casa. Batia a roupa na pedra, assim como a irmã mais velha do pai. Isso tudo antes dela ficar incapaz de trabalhar. A tia Vera era dois anos mais velha que meu pai e foi a cuidadora da minha avó até o final de sua vida. Morou na mesma casa toda a vida; nunca teve namorado nem se casou, seguindo devota de Nossa Senhora das Dores.

Ainda jovem, entre os 12 e 13 anos, meu pai começou a trabalhar no comércio da cidade. Era balconista de uma loja de móveis e miudezas. Passou a ajudar no sustento da casa até, alguns anos depois, tornar-se o principal responsável. Isso só acabou quando resolveu casar. Mas antes de sair de casa, deixou a casa “montada”, deixou um enxoval. Geladeira, guarda-roupa, fogão e outras coisas mais. Ele sempre contou deste tempo como algo duro, pobre e sem opções. O pai dele morreu e ele ficou.

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