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A condição de doente, no aparato da racionalidade médica, se traduz numa língua estrangeira com exames de imagem, testes laboratoriais, medições de marcadores tumorais, entre escassas apalpações e toques. A palavra-doença tem vocabulário e classificação própria.
Começo a aprender os limites dos discursos que cercam o sentido daquela experiência: a demência como derrota; a demência como um mal omisso; a demência como elemento brando no cotidiano. Esses discursos que circulam em algumas culturas e que podem adquirir sentido quando necessário são parciais e não refletem a parte oculta e silenciosa, no assoalho que se esfarela a cada pisada.
O corpo da minha mãe é dividido por dois grandes departamentos e seus supervisores. Há os especialistas em coração e os em cérebro.
É curioso, mas minhas duas avós também tiveram suas experiências de demência. Uma delas faleceu por conta de um câncer no ovário. Ela já não se locomovia, passando praticamente todo o tempo em seu leito ou na cadeira de rodas. Provavelmente esqueceram de outros departamentos dela.
Quem dera a minha mãe poder ser compreendida para além de sua doença.
A fronteira entre o corpo e a mente é a maior ficção ontológica da civilização. A ilusão da realidade define a angústia da loucura. Mas não é o corpo esfacelado, ainda que reivindique uma totalidade, que importa. O corpo-papel, o corpo-interior, esse se mistura.
Meu patrimônio são as memórias da minha mãe. Embora, nessa condição, eu só possa encarar essas memórias como minhas e elaborar aquilo o que é nosso. Assumir os lugares sinuosos de uma narrativa à margem das histórias.
Onde minha mãe está?