de Porto a Porto


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Texto por
Severo Garcia
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Severo Garcia

[…]

 

Há muito tempo que ando /

Nas ruas de um porto não muito alegre /

E que, no entanto /

Me trazem cantos /

E um pôr de sol /

Me traduzem versos /

De seguir livre /

Por muitos caminhos /

“Horizontes”

 

A letra da composição, de Flavio Bicca Rocha, ficou como uma espécie de memória coletiva do Rio Grande do Sul. Fala da juventude, do tempo que passa, dos caminhos que se abrem e da esperança de seguir livre.

Mas quais são as liberdades de uma vida?

Quais os caminhos possíveis quando se nasce mulher, num país marcado pela colonização, pela escravidão, pelo racismo, pela violência, pelo patriarcado e pela destruição da natureza?

Talvez seja preciso voltar.

Não para encontrar uma verdade inteira. A memória não entrega tudo. Entrega pedaços. Pequenas porções de verdade ou consequência.

O passado está em lugares. Fotografias. Nomes de ruas. Músicas. Cidades que já não são as mesmas.

Em coisas que ninguém perguntou.

Há lembranças que, remexidas, levantam poeira.

Ela nasceu em Bagé, em 1950. Um ano como qualquer outro para quem nasce.

Mas nenhum ano é apenas um ano. 1950 era um Brasil que ainda carregava o peso de uma sociedade rural, patriarcal, desigual. Um Brasil em que uma menina já começava a aprender, antes mesmo de saber, que havia mundos diferentes para homens e mulheres.

Talvez ninguém saiba quando começa a aprender essas coisas.

Depois veio Santa Maria.

Sessenta e quatro…

Ela tinha 14 anos. O Brasil mudava de regime. Uma menina fazia quatorze anos enquanto o país entrava numa ditadura que duraria duas décadas. Talvez ela não soubesse o nome daquilo. Talvez soubesse.

Talvez a História, às vezes, chega primeiro com o silêncio.

Conversas interrompidas.

Notícias no rádio.

Adultos falando baixo.

Nomes que não se diziam.

Enquanto isso, uma menina crescia.

O que uma menina de 14 anos deveria saber sobre o país?

E o que deveria saber sobre si mesma?

Sessenta e seis…

Com 16 anos, o que se sonha? Uma profissão? Um amor? Uma casa? Filhos? Uma vida diferente da vida da mãe? Ou simplesmente uma vida possível?

Para muitas mulheres daquela geração, o futuro vinha acompanhado de instruções.

Sessenta e oito…

Ter 18 anos em 1968 pode representar muita coisa. O mundo fervia. A juventude ocupava algumas ruas. A música mudava. O corpo começava a reivindicar outros lugares. Mas havia também o AI-5, a censura, a repressão. Havia uma juventude que queria mudar o mundo. E havia mulheres aprendendo, às vezes lentamente, que também precisavam mudar o lugar que lhes havia sido destinado dentro dele.

Ela tinha 18 anos. Talvez estivesse pensando no que fazer da própria vida. E enquanto o país discutia liberdade, uma jovem mulher precisava descobrir quais liberdades eram realmente suas.

Anos setenta…

“Não deu pra ti.” Ela tinha vinte e poucos anos. O país continuava sob ditadura. Mas a vida não espera a História terminar. É preciso trabalhar. Amar. Casar, talvez. Ter filhos, talvez. Construir uma casa. Comprar móveis. Fazer comida. Cuidar. Esperar. Recomeçar. A história também acontece nas cozinhas. Nos quartos. Nas filas. Nos ônibus. Nas escolas. Nos empregos. Nas festas. Nos corpos das mulheres.

A grande História costuma registrar presidentes, golpes, eleições, guerras. Mas uma mulher também atravessa uma época quando lava uma louça, pega um ônibus, trabalha, cria um filho, volta para casa.

Há coisas que não entram nos livros. Mas ficam.

Anos oitenta…

“Não vou me perder por aí.” Ela tinha 30 anos. O país começava a respirar outra vez. A ditadura terminava. A democracia voltava a ser uma palavra possível. As mulheres já ocupavam outros lugares, mas ainda carregavam muitos dos antigos. Trinta anos. Já havia uma casa. Filhos. O trabalho era com certeza cansaço. Talvez sonhos que tinham mudado de nome.

A Constituição de 1988 chegaria dizendo que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Mas nenhuma Constituição muda sozinha aquilo que uma geração aprendeu dentro de casa.

As mudanças levam tempo.

Às vezes, atravessam uma mulher inteira. E talvez uma mulher seja também o lugar onde duas épocas se encontram.

A mulher que nasceu em 1950. E, depois, minha mãe, também foi uma menina.

Teve uma infância que não conheci. Teve medos que não testemunhei. Teve desejos que talvez nunca tenha contado.

Teve uma juventude que existiu antes de mim.

Uma parte de mim também está tentando se encontrar quando volto.

Não exatamente o passado, mas uma mulher que também existiu antes da palavra mãe.

Porque uma vida nunca cabe inteira numa fotografia ou certidão.

A gente nasce num ano.

Mas nasce também dentro de uma época.

E carrega consigo aquilo que a época permitiu, aquilo que proibiu, aquilo que ensinou e aquilo que, sem perceber, deixou para trás.

Ela nasceu em 1950.

Eu nasci depois.

E, ainda assim, alguma coisa daquele tempo chegou até mim. Pelas palavras. Pelos silêncios. Pelas cidades.

Bagé.

Santa Maria.

Porto Alegre.

Portos de chegada.

Portos de partida.

E eu sigo andando.

De porto a porto.

Tentando descobrir quanto de uma mulher pertence à sua época e quanto de uma época permanece dentro de uma mulher.

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