Fragmentos de um discurso da memória


Publicado em
Texto por
Severo Garcia

 

[…]

 

A ideia de escrever um livro é romântica. Um romance que, a cada página, se corrói. Viver onde as palavras estão enclausuradas é viver no sufoco. E essa história, a seu modo, é um fio que me pendura no mundo do antes. Talvez escreva para descobrir o que a história estava tentando dizer. Esse sentimento estranho de que não se deve apagar. A memória é apenas um modo provisório de lidar com a estranheza do tempo.

 

Quando escrevi isso e enviei ao meu primo, ele, respondeu:

 

“Acho que não. O corpo e a destreza do seu funcionamento são um lado da moeda, mais vulnerável. A memória do cérebro é efêmera e não traduz a história da pessoa, alma, anima ou consciência que carrega de modo indelével seu currículo evolutivo. Esse é intacto e pode ser acessado quando temos o objetivo de aprendizado próprio ou orientação àqueles a nossa retaguarda evolutiva.

 

Grande beijo

Saudades”.

 

Eu sabia que ele iria se interessar pelo assunto. A memória o fascinava, como a mim, embora por razões diferentes. E, depois de dizer a ele que previa que a minha frase não seria “aceita” por ele, mais uma vez, partilhou:

 

“Se não for assim ou se essa hipótese não for verdadeira, não vejo sentido no viver e depois tudo se perder no nada ou no vácuo. Eterno céu ou inferno parece mais infantil ainda, dado o nível da largada, ser muito diverso para cada um. Ser protagonista da própria história, autoconstruída, sugere responsabilidade e a perecibilidade do corpo atende somente a uma pequena etapa com começo, meio e fim, com finalidade bem específica e temporária. Por isso, aproveitar inteligentemente essa vida.”

 

E, depois de um tempo, como que contagiado por algum encontro, como quem ainda duvida do que também se pode afirmar, escreveu:

 

“Se acender fogo com lenha molhada, sai fumaça. Estrelas, deve sair? Galáxias”.

 

Nos últimos três anos, minha mãe trabalhou na biblioteca da escola onde era servidora pública. Recordo-me dela animada, contando como gostava de organizar os livros nas prateleiras. Era alegre. Tinha seu próprio método. Imagino que poucos talvez pudessem compreender como usava seus critérios para fazer a distribuição dos exemplares. Com frequência, enviava fotos de capas de livros. Além disso, lia as “orelhas” dos livros e partilhava comigo. Pequenas alegrias que lhe davam prazer. E a mim também.

 

Eu sabia prestar atenção no que ela mostrava. Ela mandava porque sabia que eu me interessava. Livros sempre foram maneiras de nos conectar.

 

Biblioteca, no Brasil, é um lugar de depósito. Biblioteca de escola pública estadual nem ousaria adjetivar.

 

Talvez, na escola da minha mãe, já tivessem identificado que ela não estava bem. Algo não estava “normal”. As “atrapalhações” dela faziam parte do seu arquétipo. Ela sabia rir das suas confusões. E sabia convidar as pessoas a rirem com ela, antes que rissem dela. Ela era generosa em suas risadas.

 

Anos depois, quando já estava vivendo com meu pai, num estágio de seu adoecimento que nem saberia classificar, mas em que ainda lhe restavam o simpático sorriso no rosto e os olhos com um ar de “perdido”, mostramos para ela uma montagem de vídeos com depoimentos de familiares e amigos, com o intuito de contar histórias sobre ela. Isso foi algo inspirado no livro Still Alice, de Lisa Genova.

 

Todos os depoimentos eram atravessados pelo mesmo tipo de adjetivação: a alegria dela.

 

Então, não sei por quanto tempo ela se escondeu atrás da sua alegria. Mas existe melhor esconderijo do que esse?

SVG: print-light
SVG: facebook-brands