O destino ideal está nas mãos do “sistema”. Mas os humanos ocupam este ou aquele posto.
Talvez seja essa a lição que permanece quando olhamos para a história: os sistemas mudam, os regimes passam, os nomes das instituições se alteram, mas os humanos continuam ocupando seus lugares dentro deles. O destino ideal pode estar nas mãos do sistema; entretanto, são pessoas que dão corpo às suas engrenagens, que executam suas ordens, que silenciam ou que resistem. Há sempre alguém diante de alguém. Um corpo diante de outro corpo. Uma vida que decide sobre outra vida.
É nesse intervalo entre o sistema e aqueles que o habitam que a história começa a ganhar sentido. Porque, no fim, talvez a história não seja feita apenas pelos grandes acontecimentos, pelos governos ou pelos regimes que se sucedem. Ela também se escreve nos pequenos lugares, nas relações aparentemente banais, nas pessoas que ocupam postos e atravessam vidas sem imaginar que, um dia, suas ações, seus silêncios ou suas palavras poderão ser lembrados.
É aí que a memória encontra Dona Custódia.
Entre as décadas de 1960, 1970 e começo de 1980, o Brasil esteve submetido a um regime militar, fenômeno que não se restringiu ao país. Em diferentes momentos, outros países latino-americanos também vivenciaram regimes autoritários, marcados pela restrição das liberdades civis e políticas e pela ruptura com os princípios democráticos. Esse período, contudo, não pode ser compreendido apenas no âmbito latino-americano. Em escala mundial, emergia um profundo choque entre diferentes paradigmas de pensamento, modos de vida e projetos de sociedade.
Os efeitos acumulados das guerras que atravessaram a primeira metade do século XX ainda reverberavam e continuam a reverberar na forma como as sociedades organizam a política, constroem seus valores e imaginam o futuro. As guerras são marcos decisivos nas transformações sociais. Ao reconfigurarem a vida pública, interferem também, de maneira direta e profunda, na esfera privada, afetando vínculos, subjetividades, memórias e expectativas. O conjunto de forças que, ao longo do tempo, atravessa e transforma os sujeitos e os espaços é, em grande medida, incalculável.
É a história, em diálogo com a arqueologia da memória, que nos ajuda a compreender essas camadas do tempo. A palavra, quando emerge, desvela e revela aquilo que permaneceu oculto, silenciado ou inexplorado nos espaços da história. É por meio dela que acontecimentos, experiências e sujeitos podem retornar ao presente, disputando sentidos e produzindo novas possibilidades de interpretação.
Entre tantos episódios que marcam esse período, destaca-se, na Argentina, a repressão promovida pela ditadura militar e, como uma de suas consequências mais brutais, o desaparecimento forçado de pessoas consideradas contrárias ao regime. Esses desaparecimentos deram origem a movimentos de resistência que encontraram nas mães dos militantes políticos uma de suas expressões mais emblemáticas: as Madres de Plaza de Mayo. Reunidas em espaço público, essas mulheres passaram a exigir informações sobre o paradeiro de seus filhos e filhas, transformando a dor privada em denúncia pública e a ausência em uma forma de resistência política.
Mais do que um episódio isolado, essa experiência constitui uma marca histórica de resistência à violência de um regime autoritário que buscou controlar corpos, silenciar vozes e apagar memórias. Ao ocupar o espaço público, as mães desafiaram o silêncio imposto pelo Estado e fizeram da memória uma forma de luta. Seus corpos em movimento, suas palavras e sua presença reiterada nas praças converteram a ausência dos filhos e filhas desaparecidos em uma presença política impossível de ser apagada.
No fim, talvez Dona Custódia seja isso: alguém diante de uma porta. De um lado, o sistema. Do outro, uma vida. E entre os dois, a escolha, pequena, silenciosa, quase invisível, de abrir, fechar ou simplesmente permanecer.