25 de janeiro de 2025


Publicado em
Texto por
Severo Garcia
Imagem por
Severo Garcia

 

[…]

Quando você fez 75 anos, nos reunimos para celebrar. Todos juntos, na mesma casa, por três dias. Coisa de ciganos. No dia do seu aniversário, suas amigas vieram e comemoramos. Da manhã até a noite. Mas, em nenhum momento, você ou qualquer um de nós fez um discurso. Não houve palavras reunidas para dizer aquilo que sentíamos. Nada além do tradicional “Parabéns a você”.

 

Nunca tivemos esse ritual de falar uns aos outros sobre o que sentíamos, sobretudo diante dos outros. Às vezes, nem mesmo quando estávamos sós. O afeto circulava por outros lugares. Estava nos gestos, nas pequenas coisas, naquilo que se fazia sem precisar explicar. As palavras quase nunca chegavam.

 

Por alguma razão, eu escrevia “cartinhas” de amor para você. No trabalho do meu pai, enquanto esperava, às vezes conseguia um ou outro envelope de carta. Nesses momentos, escrevia para você. Muito tempo depois, encontrei essas cartinhas guardadas entre suas memórias. Talvez tenha sido ali que aprendi que amar era uma coisa que se demonstrava, não necessariamente uma coisa que se dizia. Falar e escrever sobre o que se sente foram aprendizados que vieram depois.

Minha irmã, mais de um ano depois, contou que havia estado no aniversário de 90 anos de uma senhora amiga. Naquela ocasião, ouviu muitas pessoas falarem com carinho e admiração sobre a vida daquela mulher, sobre quem ela era e sobre o que havia significado para cada uma delas.

 

O que mais a surpreendeu foi a naturalidade. As pessoas simplesmente falavam. Diziam umas às outras aquilo que sentiam, como se não houvesse nada de estranho em colocar em palavras uma vida compartilhada.

 

Admirada, minha irmã nos fez uma pergunta que ficou entre nós:

Por que nunca falávamos sobre o que sentíamos em família?

SVG: print-light
SVG: facebook-brands