o que ficou para dizer


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Texto por
Severo Garcia
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Severo Garcia

[…]

 

Adotei como endereço a distância.

 

Talvez porque a distância seja o único lugar onde ainda consigo encontrá-la. Ou porque, de tão longe, as lembranças tenham aprendido a inventar você. Já não sei se aquilo de que me lembro aconteceu ou se foi a memória, cansada de perder, que resolveu fabricar uma ficção para não ficar sozinha.

 

Às vezes penso que esse devaneio aprendi nos anos em que estudei psicanálise. Outras vezes desconfio que estou apenas roubando, sem perceber, alguma coisa que li num livro e esqueci de esquecer. Mas, se é verdade que escrever é tentar tocar aquilo que se perdeu, aquilo que falta, aquilo que sobra ou corrói, então preciso admitir: cheguei tarde. Séculos tarde. Antes de mim, alguém já havia tentado dizer o indizível.

 

E, no entanto, escrevo.

 

Em certa medida, tento escrever a história do seu esquecimento.

 

E, escrevendo o seu esquecimento, descubro que estou escrevendo o meu.

 

Talvez seja isso a autoficção: inventar uma história para aquilo que a memória não conseguiu salvar. Ou salvar, pela invenção, aquilo que a história condenou ao desaparecimento.

 

Autoficção de uma ancestralidade em extinção.

 

Mas não quero fazer do desaparecimento uma espécie de destino. Há, no meio da ruína, alguma coisa que insiste. Uma força que não sei nomear. Uma forma de criação que nasce justamente onde tudo parecia terminar.

 

Porque é preciso contar também a potência.

 

Não encerrar no caos.

 

O caos existe, e não deve ser evitado. Mas talvez não tenha o direito de ser a última palavra.

 

Então, o que transmitir?

 

Talvez seja simples.

 

Ou quase.

 

Transmitir o que ainda nos torna capazes de reconhecer no outro aquilo que poderia ter sido nosso.

 

Transmitir empatia.

 

Como quem passa adiante uma pequena chama.

 

Como quem, diante do que está desaparecendo, ainda estende a mão.

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