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	<title>Ensaios &#8211; Severo Garcia</title>
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	<description>Boas-vindas ao nosso website</description>
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		<title>de Porto a Porto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 23:40:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[[…] &#160; Há muito tempo que ando / Nas ruas de um porto não muito alegre / E que, no entanto / Me trazem cantos / E um pôr de sol / Me traduzem versos / De seguir livre / <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/de-porto-a-porto/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>[…]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Há muito tempo que ando /</em></p>
<p><em>Nas ruas de um porto não muito alegre /</em></p>
<p><em>E que, no entanto /</em></p>
<p><em>Me trazem cantos /</em></p>
<p><em>E um pôr de sol /</em></p>
<p><em>Me traduzem versos /</em></p>
<p><em>De seguir livre /</em></p>
<p><em>Por muitos caminhos /</em></p>
<p>“Horizontes”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A letra da composição, de Flavio Bicca Rocha, ficou como uma espécie de memória coletiva do Rio Grande do Sul. Fala da juventude, do tempo que passa, dos caminhos que se abrem e da esperança de seguir livre.</p>
<p>Mas quais são as liberdades de uma vida?</p>
<p>Quais os caminhos possíveis quando se nasce mulher, num país marcado pela colonização, pela escravidão, pelo racismo, pela violência, pelo patriarcado e pela destruição da natureza?</p>
<p>Talvez seja preciso voltar.</p>
<p>Não para encontrar uma verdade inteira. A memória não entrega tudo. Entrega pedaços. Pequenas porções de verdade ou consequência.</p>
<p>O passado está em lugares. Fotografias. Nomes de ruas. Músicas. Cidades que já não são as mesmas.</p>
<p>Em coisas que ninguém perguntou.</p>
<p>Há lembranças que, remexidas, levantam poeira.</p>
<p>Ela nasceu em Bagé, em 1950. Um ano como qualquer outro para quem nasce.</p>
<p>Mas nenhum ano é apenas um ano. 1950 era um Brasil que ainda carregava o peso de uma sociedade rural, patriarcal, desigual. Um Brasil em que uma menina já começava a aprender, antes mesmo de saber, que havia mundos diferentes para homens e mulheres.</p>
<p>Talvez ninguém saiba quando começa a aprender essas coisas.</p>
<p>Depois veio Santa Maria.</p>
<p>Sessenta e quatro…</p>
<p>Ela tinha 14 anos. O Brasil mudava de regime. Uma menina fazia quatorze anos enquanto o país entrava numa ditadura que duraria duas décadas. Talvez ela não soubesse o nome daquilo. Talvez soubesse.</p>
<p>Talvez a História, às vezes, chega primeiro com o silêncio.</p>
<p>Conversas interrompidas.</p>
<p>Notícias no rádio.</p>
<p>Adultos falando baixo.</p>
<p>Nomes que não se diziam.</p>
<p>Enquanto isso, uma menina crescia.</p>
<p>O que uma menina de 14 anos deveria saber sobre o país?</p>
<p>E o que deveria saber sobre si mesma?</p>
<p>Sessenta e seis…</p>
<p>Com 16 anos, o que se sonha? Uma profissão? Um amor? Uma casa? Filhos? Uma vida diferente da vida da mãe? Ou simplesmente uma vida possível?</p>
<p>Para muitas mulheres daquela geração, o futuro vinha acompanhado de instruções.</p>
<p>Sessenta e oito…</p>
<p>Ter 18 anos em 1968 pode representar muita coisa. O mundo fervia. A juventude ocupava algumas ruas. A música mudava. O corpo começava a reivindicar outros lugares. Mas havia também o AI-5, a censura, a repressão. Havia uma juventude que queria mudar o mundo. E havia mulheres aprendendo, às vezes lentamente, que também precisavam mudar o lugar que lhes havia sido destinado dentro dele.</p>
<p>Ela tinha 18 anos. Talvez estivesse pensando no que fazer da própria vida. E enquanto o país discutia liberdade, uma jovem mulher precisava descobrir quais liberdades eram realmente suas.</p>
<p>Anos setenta…</p>
<p>“Não deu pra ti.” Ela tinha vinte e poucos anos. O país continuava sob ditadura. Mas a vida não espera a História terminar. É preciso trabalhar. Amar. Casar, talvez. Ter filhos, talvez. Construir uma casa. Comprar móveis. Fazer comida. Cuidar. Esperar. Recomeçar. A história também acontece nas cozinhas. Nos quartos. Nas filas. Nos ônibus. Nas escolas. Nos empregos. Nas festas. Nos corpos das mulheres.</p>
<p>A grande História costuma registrar presidentes, golpes, eleições, guerras. Mas uma mulher também atravessa uma época quando lava uma louça, pega um ônibus, trabalha, cria um filho, volta para casa.</p>
<p>Há coisas que não entram nos livros. Mas ficam.</p>
<p>Anos oitenta…</p>
<p>“Não vou me perder por aí.” Ela tinha 30 anos. O país começava a respirar outra vez. A ditadura terminava. A democracia voltava a ser uma palavra possível. As mulheres já ocupavam outros lugares, mas ainda carregavam muitos dos antigos. Trinta anos. Já havia uma casa. Filhos. O trabalho era com certeza cansaço. Talvez sonhos que tinham mudado de nome.</p>
<p>A Constituição de 1988 chegaria dizendo que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Mas nenhuma Constituição muda sozinha aquilo que uma geração aprendeu dentro de casa.</p>
<p>As mudanças levam tempo.</p>
<p>Às vezes, atravessam uma mulher inteira. E talvez uma mulher seja também o lugar onde duas épocas se encontram.</p>
<p>A mulher que nasceu em 1950. E, depois, minha mãe, também foi uma menina.</p>
<p>Teve uma infância que não conheci. Teve medos que não testemunhei. Teve desejos que talvez nunca tenha contado.</p>
<p>Teve uma juventude que existiu antes de mim.</p>
<p>Uma parte de mim também está tentando se encontrar quando volto.</p>
<p>Não exatamente o passado, mas uma mulher que também existiu antes da palavra mãe.</p>
<p>Porque uma vida nunca cabe inteira numa fotografia ou certidão.</p>
<p>A gente nasce num ano.</p>
<p>Mas nasce também dentro de uma época.</p>
<p>E carrega consigo aquilo que a época permitiu, aquilo que proibiu, aquilo que ensinou e aquilo que, sem perceber, deixou para trás.</p>
<p>Ela nasceu em 1950.</p>
<p>Eu nasci depois.</p>
<p>E, ainda assim, alguma coisa daquele tempo chegou até mim. Pelas palavras. Pelos silêncios. Pelas cidades.</p>
<p>Bagé.</p>
<p>Santa Maria.</p>
<p>Porto Alegre.</p>
<p>Portos de chegada.</p>
<p>Portos de partida.</p>
<p>E eu sigo andando.</p>
<p>De porto a porto.</p>
<p>Tentando descobrir quanto de uma mulher pertence à sua época e quanto de uma época permanece dentro de uma mulher.</p>
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		<title>Fragmentos de um discurso da memória</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 22:38:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; […] &#160; A ideia de escrever um livro é romântica. Um romance que, a cada página, se corrói. Viver onde as palavras estão enclausuradas é viver no sufoco. E essa história, a seu modo, é um fio que me <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/fragmentos-de-um-discurso-da-memoria/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>[…]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A ideia de escrever um livro é romântica. Um romance que, a cada página, se corrói. Viver onde as palavras estão enclausuradas é viver no sufoco. E essa história, a seu modo, é um fio que me pendura no mundo do antes. Talvez escreva para descobrir o que a história estava tentando dizer. Esse sentimento estranho de que não se deve apagar. A memória é apenas um modo provisório de lidar com a estranheza do tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando escrevi isso e enviei ao meu primo, ele, respondeu:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Acho que não. O corpo e a destreza do seu funcionamento são um lado da moeda, mais vulnerável. A memória do cérebro é efêmera e não traduz a história da pessoa, alma, anima ou consciência que carrega de modo indelével seu currículo evolutivo. Esse é intacto e pode ser acessado quando temos o objetivo de aprendizado próprio ou orientação àqueles a nossa retaguarda evolutiva.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Grande beijo</p>
<p>Saudades”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu sabia que ele iria se interessar pelo assunto. A memória o fascinava, como a mim, embora por razões diferentes. E, depois de dizer a ele que previa que a minha frase não seria “aceita” por ele, mais uma vez, partilhou:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Se não for assim ou se essa hipótese não for verdadeira, não vejo sentido no viver e depois tudo se perder no nada ou no vácuo. Eterno céu ou inferno parece mais infantil ainda, dado o nível da largada, ser muito diverso para cada um. Ser protagonista da própria história, autoconstruída, sugere responsabilidade e a perecibilidade do corpo atende somente a uma pequena etapa com começo, meio e fim, com finalidade bem específica e temporária. Por isso, aproveitar inteligentemente essa vida.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E, depois de um tempo, como que contagiado por algum encontro, como quem ainda duvida do que também se pode afirmar, escreveu:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Se acender fogo com lenha molhada, sai fumaça. Estrelas, deve sair? Galáxias”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nos últimos três anos, minha mãe trabalhou na biblioteca da escola onde era servidora pública. Recordo-me dela animada, contando como gostava de organizar os livros nas prateleiras. Era alegre. Tinha seu próprio método. Imagino que poucos talvez pudessem compreender como usava seus critérios para fazer a distribuição dos exemplares. Com frequência, enviava fotos de capas de livros. Além disso, lia as “orelhas” dos livros e partilhava comigo. Pequenas alegrias que lhe davam prazer. E a mim também.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu sabia prestar atenção no que ela mostrava. Ela mandava porque sabia que eu me interessava. Livros sempre foram maneiras de nos conectar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Biblioteca, no Brasil, é um lugar de depósito. Biblioteca de escola pública estadual nem ousaria adjetivar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez, na escola da minha mãe, já tivessem identificado que ela não estava bem. Algo não estava “normal”. As “atrapalhações” dela faziam parte do seu arquétipo. Ela sabia rir das suas confusões. E sabia convidar as pessoas a rirem com ela, antes que rissem dela. Ela era generosa em suas risadas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Anos depois, quando já estava vivendo com meu pai, num estágio de seu adoecimento que nem saberia classificar, mas em que ainda lhe restavam o simpático sorriso no rosto e os olhos com um ar de “perdido”, mostramos para ela uma montagem de vídeos com depoimentos de familiares e amigos, com o intuito de contar histórias sobre ela. Isso foi algo inspirado no livro Still Alice, de Lisa Genova.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Todos os depoimentos eram atravessados pelo mesmo tipo de adjetivação: a alegria dela.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Então, não sei por quanto tempo ela se escondeu atrás da sua alegria. Mas existe melhor esconderijo do que esse?</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>o que ficou para dizer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 01:54:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[[…] &#160; Adotei como endereço a distância. &#160; Talvez porque a distância seja o único lugar onde ainda consigo encontrá-la. Ou porque, de tão longe, as lembranças tenham aprendido a inventar você. Já não sei se aquilo de que me <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/o-que-ficou-para-dizer/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>[…]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Adotei como endereço a distância.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez porque a distância seja o único lugar onde ainda consigo encontrá-la. Ou porque, de tão longe, as lembranças tenham aprendido a inventar você. Já não sei se aquilo de que me lembro aconteceu ou se foi a memória, cansada de perder, que resolveu fabricar uma ficção para não ficar sozinha.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Às vezes penso que esse devaneio aprendi nos anos em que estudei psicanálise. Outras vezes desconfio que estou apenas roubando, sem perceber, alguma coisa que li num livro e esqueci de esquecer. Mas, se é verdade que escrever é tentar tocar aquilo que se perdeu, aquilo que falta, aquilo que sobra ou corrói, então preciso admitir: cheguei tarde. Séculos tarde. Antes de mim, alguém já havia tentado dizer o indizível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E, no entanto, escrevo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em certa medida, tento escrever a história do seu esquecimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E, escrevendo o seu esquecimento, descubro que estou escrevendo o meu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez seja isso a autoficção: inventar uma história para aquilo que a memória não conseguiu salvar. Ou salvar, pela invenção, aquilo que a história condenou ao desaparecimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Autoficção de uma ancestralidade em extinção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas não quero fazer do desaparecimento uma espécie de destino. Há, no meio da ruína, alguma coisa que insiste. Uma força que não sei nomear. Uma forma de criação que nasce justamente onde tudo parecia terminar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Porque é preciso contar também a potência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não encerrar no caos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O caos existe, e não deve ser evitado. Mas talvez não tenha o direito de ser a última palavra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Então, o que transmitir?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez seja simples.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ou quase.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Transmitir o que ainda nos torna capazes de reconhecer no outro aquilo que poderia ter sido nosso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Transmitir empatia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como quem passa adiante uma pequena chama.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como quem, diante do que está desaparecendo, ainda estende a mão.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Dona Custódia</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/dona-custodia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jul 2026 00:23:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[O destino ideal está nas mãos do “sistema”. Mas os humanos ocupam este ou aquele posto. &#160; Talvez seja essa a lição que permanece quando olhamos para a história: os sistemas mudam, os regimes passam, os nomes das instituições se <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/dona-custodia/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<hr />
<p>O destino ideal está nas mãos do “sistema”. Mas os humanos ocupam este ou aquele posto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez seja essa a lição que permanece quando olhamos para a história: os sistemas mudam, os regimes passam, os nomes das instituições se alteram, mas os humanos continuam ocupando seus lugares dentro deles. O destino ideal pode estar nas mãos do sistema; entretanto, são pessoas que dão corpo às suas engrenagens, que executam suas ordens, que silenciam ou que resistem. Há sempre alguém diante de alguém. Um corpo diante de outro corpo. Uma vida que decide sobre outra vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É nesse intervalo entre o sistema e aqueles que o habitam que a história começa a ganhar sentido. Porque, no fim, talvez a história não seja feita apenas pelos grandes acontecimentos, pelos governos ou pelos regimes que se sucedem. Ela também se escreve nos pequenos lugares, nas relações aparentemente banais, nas pessoas que ocupam postos e atravessam vidas sem imaginar que, um dia, suas ações, seus silêncios ou suas palavras poderão ser lembrados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É aí que a memória encontra Dona Custódia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entre as décadas de 1960, 1970 e começo de 1980, o Brasil esteve submetido a um regime militar, fenômeno que não se restringiu ao país. Em diferentes momentos, outros países latino-americanos também vivenciaram regimes autoritários, marcados pela restrição das liberdades civis e políticas e pela ruptura com os princípios democráticos. Esse período, contudo, não pode ser compreendido apenas no âmbito latino-americano. Em escala mundial, emergia um profundo choque entre diferentes paradigmas de pensamento, modos de vida e projetos de sociedade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os efeitos acumulados das guerras que atravessaram a primeira metade do século XX ainda reverberavam e continuam a reverberar na forma como as sociedades organizam a política, constroem seus valores e imaginam o futuro. As guerras são marcos decisivos nas transformações sociais. Ao reconfigurarem a vida pública, interferem também, de maneira direta e profunda, na esfera privada, afetando vínculos, subjetividades, memórias e expectativas. O conjunto de forças que, ao longo do tempo, atravessa e transforma os sujeitos e os espaços é, em grande medida, incalculável.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É a história, em diálogo com a arqueologia da memória, que nos ajuda a compreender essas camadas do tempo. A palavra, quando emerge, desvela e revela aquilo que permaneceu oculto, silenciado ou inexplorado nos espaços da história. É por meio dela que acontecimentos, experiências e sujeitos podem retornar ao presente, disputando sentidos e produzindo novas possibilidades de interpretação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entre tantos episódios que marcam esse período, destaca-se, na Argentina, a repressão promovida pela ditadura militar e, como uma de suas consequências mais brutais, o desaparecimento forçado de pessoas consideradas contrárias ao regime. Esses desaparecimentos deram origem a movimentos de resistência que encontraram nas mães dos militantes políticos uma de suas expressões mais emblemáticas: as Madres de Plaza de Mayo. Reunidas em espaço público, essas mulheres passaram a exigir informações sobre o paradeiro de seus filhos e filhas, transformando a dor privada em denúncia pública e a ausência em uma forma de resistência política.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mais do que um episódio isolado, essa experiência constitui uma marca histórica de resistência à violência de um regime autoritário que buscou controlar corpos, silenciar vozes e apagar memórias. Ao ocupar o espaço público, as mães desafiaram o silêncio imposto pelo Estado e fizeram da memória uma forma de luta. Seus corpos em movimento, suas palavras e sua presença reiterada nas praças converteram a ausência dos filhos e filhas desaparecidos em uma presença política impossível de ser apagada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No fim, talvez Dona Custódia seja isso: alguém diante de uma porta. De um lado, o sistema. Do outro, uma vida. E entre os dois, a escolha, pequena, silenciosa, quase invisível, de abrir, fechar ou simplesmente permanecer.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>passando a perna</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jul 2026 23:44:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Ao banhar-me, costumo pensar o que não penso. É, quase sempre, uma oportunidade para refletir sobre o que me arranca e escorre pelas mãos: o tempo que caminha e se move no que vivo. Hoje lembrei dos mestres. Daqueles <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/passando-a-perna/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Ao banhar-me, costumo pensar o que não penso. É, quase sempre, uma oportunidade para refletir sobre o que me arranca e escorre pelas mãos: o tempo que caminha e se move no que vivo.</p>
<p>Hoje lembrei dos mestres. Daqueles e daquelas que ensinam sem sequer se anunciarem. Livros, filmes, lugares, trilhas e pequenos detalhes que não estão explícitos. São presentes implícitos. Aquele livro do Foucault que hoje está gasto. Aquele filme francês sobre as comunas francesas, com Gerard Depardieu. O álbum Araçá Azul, do Caetano Veloso. A poesia do Chacal.</p>
<p>Mas talvez seja tudo fruto da minha imaginação, da minha experiência de uma realidade fantasiosa. Não sei. Tenho tantos planos que mestres e mestras andam juntos na minha consciência.</p>
<p>Com o tempo, tornei-me professor, poeta, pai e pesquisador, não necessariamente nessa ordem. Esse quadrilátero me mantém numa ventania. É o que sou. É no que estou. Cambiando. Bailando.</p>
<p>Qual dessas funções sumirá com o tempo? Não sei. Calma. Não sabemos.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>mentiras</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/mentiras/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Jun 2026 03:11:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[[…] &#160; Menti para ela. O esquecimento mata o hospedeiro. No começo não foi fácil. Minúsculas mentiras. Até que o tempo começou a desabar. Gestos miúdos do cotidiano. Ela arrancava os botões das roupas, não sabia como manusear as próprias <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/mentiras/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>[…]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Menti para ela. O esquecimento mata o hospedeiro.</p>
<p>No começo não foi fácil. Minúsculas mentiras. Até que o tempo começou a desabar. Gestos miúdos do cotidiano. Ela arrancava os botões das roupas, não sabia como manusear as próprias mãos. Começamos a mentir até esquecermos de colocar a história em ordem. Os dias da semana foram perdendo a importância. Protegendo do susto, da surpresa, da lacuna. Mas é impossível preencher todos os espaços sem esquecer de quem somos.</p>
<p>Ela confundia garfo com faca, faca com garfo. Comida na boca, boca na comida. Embaralhava as roupas, os esmaltes, as cores, as regras. Não é fácil ver alguém se perder de si.</p>
<p>A minha mãe, com sua coragem e vontade, trançava suas pernas pelas ruas da cidade. Nunca desejou aprender a dirigir, mas isso nunca a impediu de tomar ônibus. Mesmo no último ano antes da aposentadoria compulsória, aos 75 anos, seguia de casa para a escola.</p>
<p>Entre tantos sinais, há um dia que recordo com nitidez: sua aposentadoria.</p>
<p>Fomos em família prestigiar e testemunhar aquele momento. Junto com suas netas, levei-a até o local onde se despediria do trabalho como professora. Estava animada; ainda sabia que se tratava de algo importante. Acho que, naquela época, negávamos qualquer diagnóstico, embora já percebêssemos seus lapsos e suas “atrapalhações”, como costumávamos dizer.</p>
<p>Minha mãe, antes do diagnóstico, teve muitas dessas atrapalhações. Assim como a mãe dela. Atrapalhação hereditária.</p>
<p>Para mim, aquele dia marcou uma virada, outra fase da sua vida.</p>
<p>Quando a atendente da secretaria de educação pediu que preenchesse uma ficha com seus dados pessoais, minha mãe pegou a folha, sorriu e, com a simpatia de sempre, pediu que eu a ajudasse.</p>
<p>No início, sorri também. Achei que fosse uma brincadeira. Mas ela continuou me olhando, esperando.</p>
<p>Foi então que percebi: ela precisava de ajuda para preencher os próprios dados.</p>
<p>Preenchi a ficha. Ela assinou.</p>
<p>Comemoramos, tiramos algumas fotografias e voltamos para casa.</p>
<p>Foi naquele dia que menti para mim.</p>
<p>Acreditei na fantasia de que aquele lapso não era real.</p>
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		<title>arrimo de familia (história do pai)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jun 2026 02:09:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; (…) Meu pai, quase como um mantra, repetia duas coisas; uma delas era anunciada quando algum “gatilho” do trabalho aparecia. Quase sempre em tom paroquial reproduzia: “o trabalho dignifica o homem”. Muito tempo depois, passado dos quarenta anos, descobri <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/arrimo-de-familia-historia-do-pai/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>(…)</p>
<p>Meu pai, quase como um mantra, repetia duas coisas; uma delas era anunciada quando algum “gatilho” do trabalho aparecia. Quase sempre em tom paroquial reproduzia: “o trabalho dignifica o homem”. Muito tempo depois, passado dos quarenta anos, descobri que a frase não era do meu pai. É gozado como algumas palavras parecem ter mais de uma autoria. A frase é de Max Weber.</p>
<p>A outra coisa que meu pai repetia era: “eu era arrimo de família”. Escutei tanta vezes essa frase que demorei para perceber a profunda importância que ela carregava. Há comportamentos e ideias com os quais crescemos e deixamos de questionar suas origens. Também somente com o tempo percebi que essa expressão &#8211; arrimo &#8211; não era cotidianamente utilizada. E palavra pouco comum só fui compreender quando passei a prestar mais atenção à palavra escrita. Provavelmente, era uma linguagem de sua época.</p>
<p>Arrimo de família é quem sustenta, financeiramente, a casa. Meu pai nasceu em 1947, no século XX, assim como eu, embora 36 anos depois. Ele perdeu o pai aos oito anos. O irmão mais novo ainda estava na barriga da minha avó quando meu avô, Dirceu, morreu. Conta que meu tio Roberto o chamava de “pai”. Não sei e nunca saberei o que é ser chamado de pai pelo próprio irmão.</p>
<p>Ele contou diversas vezes que, ainda pequeno, tinha que sair de casa (a casa merece um capítulo a parte) e vagar pela cidade para vender bergamotas e outras frutas acessíveis nos pomares e campos onde morava com minha avó e minhas tias. Sua mãe, Deolinda, minha avó que tenho vagas memórias de balbuciar algumas palavras enigmáticas que somente minhas tias, que moravam na mesma casa que ela, compreendiam. Ela ficava quase imóvel entre sua cadeira de rodas e a poltrona na sala. Resmungava coisas que jamais entendia quando criança. Ela lavava roupas no riacho perto de casa. Batia a roupa na pedra, assim como a irmã mais velha do pai. Isso tudo antes dela ficar incapaz de trabalhar. A tia Vera era dois anos mais velha que meu pai e foi a cuidadora da minha avó até o final de sua vida. Morou na mesma casa toda a vida; nunca teve namorado nem se casou, seguindo devota de Nossa Senhora das Dores.</p>
<p>Ainda jovem, entre os 12 e 13 anos, meu pai começou a trabalhar no comércio da cidade. Era balconista de uma loja de móveis e miudezas. Passou a ajudar no sustento da casa até, alguns anos depois, tornar-se o principal responsável. Isso só acabou quando resolveu casar. Mas antes de sair de casa, deixou a casa “montada”, deixou um enxoval. Geladeira, guarda-roupa, fogão e outras coisas mais. Ele sempre contou deste tempo como algo duro, pobre e sem opções. O pai dele morreu e ele ficou.</p>
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		<title>o luto de uma mãe</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 May 2026 23:24:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[A voz escrita não tem idade. Memória e imaginação alicerçam passos em conjunto e reproduzem a si mesmas. Talvez por isso, à exemplo do que J.M. Coetzze formula sobre sua própria memória ficcional em “Verão”, a escrita inspira recursos do <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/o-luto-de-uma-mae/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>A voz escrita não tem idade. Memória e imaginação alicerçam passos em conjunto e reproduzem a si mesmas. Talvez por isso, à exemplo do que J.M. Coetzze formula sobre sua própria memória ficcional em “Verão”, a escrita inspira recursos do inconsciente. Ter consciência excessiva de si mesmo pode interromper certos movimentos. Nossas histórias de vida nos pertencem, dentro dos limites do real, são também construções que elaboramos como podemos. Outra ideia que, talvez, Coetzee reconheceria.</p></blockquote>
<p>Sempre me identifiquei com aquilo que não compreendi por inteiro. Às vezes, não entender tudo é quase uma forma de salvação.</p>
<p>Lendo “Diário de Luto”, de Roland Barthes, conjuguei algumas reflexões sobre o luto de uma mãe. Perder uma mãe é uma dor que não se desfaz por completo. Não se aprende o momento exato em que se nasce, mas é sempre por ela que se retorna ao mundo, como se o nascimento insistisse.</p>
<p>Elas permanecem nas margens dos cadernos, nos gestos repetidos sem consciência, nas palavras que ainda nos atravessam quando já não há quem as diga. Quem são as mães que partem? O que delas continua?</p>
<p>Talvez sejam isso: uma crença silenciosa que os filhos e as filhas carregam sem saber, uma espécie de fé sem nome. Como se, ao perder a mãe, algo da própria origem se tornasse irrecuperável e oculta.</p>
<p>Uma mãe é uma herança .</p>
<p>Quando uma mãe morre, não é uma vida que se encerra, mas muitas que se deslocam, que se reorganizam.</p>
<p>Aceitar sua partida é compreender um pouco mais a própria morte. Reconhecer que ela já nos habita, e que, desde então, viver passa a ser também aprender a perdê-la, pouco a pouco, dentro de si. É, simultaneamente, carregar e caminhar em alguma direção alheia.</p>
<p>Uma mãe alimenta. Qualquer que seja a espécie, ela instintivamente dá de comer a sua prole.</p>
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		<title>corpo e papel</title>
		<link>https://www.severogarcia.com.br/corpo-e-papel/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2026 02:02:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[(…) &#160; A condição de doente, no aparato da racionalidade médica, se traduz numa língua estrangeira com exames de imagem, testes laboratoriais, medições de marcadores tumorais, entre escassas apalpações e toques. A palavra-doença tem vocabulário e classificação própria. Começo a <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/corpo-e-papel/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">(…)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A condição de doente, no aparato da racionalidade médica, se traduz numa língua estrangeira com exames de imagem, testes laboratoriais, medições de marcadores tumorais, entre escassas apalpações e toques. A palavra-doença tem vocabulário e classificação própria.</p>
<p>Começo a aprender os limites dos discursos que cercam o sentido daquela experiência: a demência como derrota; a demência como um mal omisso; a demência como elemento brando no cotidiano. Esses discursos que circulam em algumas culturas e que podem adquirir sentido quando necessário são parciais e não refletem a parte oculta e silenciosa, no assoalho que se esfarela a cada pisada.</p>
<p>O corpo da minha mãe é dividido por dois grandes departamentos e seus supervisores. Há os especialistas em coração e os em cérebro.</p>
<p>É curioso, mas minhas duas avós também tiveram suas experiências de demência. Uma delas faleceu por conta de um câncer no ovário. Ela já não se locomovia, passando praticamente todo o tempo em seu leito ou na cadeira de rodas. Provavelmente esqueceram de outros departamentos dela.</p>
<p>Quem dera a minha mãe poder ser compreendida para além de sua doença.</p>
<p>A fronteira entre o corpo e a mente é a maior ficção ontológica da civilização. A ilusão da realidade define a angústia da loucura. Mas não é o corpo esfacelado, ainda que reivindique uma totalidade, que importa. O corpo-papel, o corpo-interior, esse se mistura.</p>
<p>Meu patrimônio são as memórias da minha mãe. Embora, nessa condição, eu só possa encarar essas memórias como minhas e elaborar aquilo o que é nosso. Assumir os lugares sinuosos de uma narrativa à margem das histórias.</p>
<p>Onde minha mãe está?</p>
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		<title>sobre números, nomes e abandono</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Severo Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 02:31:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[Os números de presos passam a nos impactar cada vez menos. São mais de 500. Fala-se de uma capacidade acima do imaginável. Mas o sistema penitenciário se faz viável numa realidade questionável. O que nos dizem os números da superlotação? <a class="leia-mais" href="https://www.severogarcia.com.br/sobre-numeros-nomes-e-abandono/">&#8230; <i class="fa fa-plus-square"></i> Mais</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os números de presos passam a nos impactar cada vez menos. São mais de 500. Fala-se de uma capacidade acima do imaginável. Mas o sistema penitenciário se faz viável numa realidade questionável. O que nos dizem os números da superlotação? Pode ser num presídio, numa penitenciária… Eu saberia o nome de 500 indivíduos? São vítimas? Produtos e produtores de um sistema espantosamente vivo e fluido. Quem se importa com pessoas privadas de liberdade? Mães. Não todas, mas são as mães [do cárcere, da militância, das escolas, das igrejas, das comunidades] que não arredam pé da vida dos seus filhos e de suas filhas. Uma mãe é um lugar incontestável. Quem joga spray de pimenta em uma mãe? Quem desce a porrada na cara de uma mãe? Quinhentos filhos da mãe, filhos de pais [ocultos ou ausentes, em sua maioria], filhos num destino improvável, filhos da insegurança, do fascínio pelo poder. Mães e filhos à deriva de um Estado. Famílias abandonadas, esquecidas, humilhadas. Quem ainda se impacta com a vida e suas liberdades talvez pareça pessimista, mas insiste em fazer algo diferente. “Cada detento, uma mãe, uma crença”.</p>
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